Afinidades Eletivas By Beto Kavalcante  
     
 
Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010 Contatos Imediatos Anuncie
Cobertura de Eventos
Notícias
Vídeos
Blog
Sociais
Agenda
Supra Súmula
Voltar
23 de Junho de 2009 - 15:29
Cachorro Morto no Jardim

A escola Jardim das Nações, Taubaté, promoveu o espetáculo Cachorro Morto nos dias 18 e 19 de junho. A peça, apontada como umas das 10 melhores em cartaz em São Paulo, conta a história de um menino autista (interpretado por 5 atores) que encontra um cachorro morto no quintal da vizinha e, a partir daí, começa uma trama de crime e mistério em busca de quem assassinou o animal.

Sucesso de crítica e de público a peça surpreende ao apresentar um outro olhar sobre o mundo, a partir da visão de um autista, criando uma aproximação com o público da realidade, linguagem e da expressão dos portadores da síndrome.

Direção magnífica de Leonardo Moreira (que também assina o texto) e atuação de tirar o fôlego dos 5 atores.

A peça encerrou a última edição da VII Mostra de Municipal Teatro de Taubaté como convidado espeical.

Um salto criativo

por Léo Mariano especial para Afinidades Eletivas

Para quem não conhece, Cachorro Morto narra a história de um portador da síndrome de asperge - uma espécie de autismo - que decide investigar a morte do cachorro da vizinha. Cinco atores, 2 homens e 3 mulheres, se revezando em todos os personagens, incluindo o personagem principal. Figurinos bem planejados, um cenário com uma gigantesca paredes de post it, de latas de ervilhas organizadas em pilhas nos cantos inferiores do palco, um projetor de imagens, trilha sonora mínimal, direção intimista. Tudo isso é bem amarrado, de maneira simples. O que não é fácil, considerando que cada elemento descrito acima contribui para a progressão narrativa e o envolvimento do público.

Para alinhavar esses elementos o espetáculo traz para si duas noções da literatura: o narrador em 1º pessoa e o fluxo de consciência. São trabalhados juntos com os elementos do texto teatral. Ciente do começo, meio e fim da trama, o personagem principal conduz o espectador aos recortes que mais lhe aprazam. No teatro, ao contrário, o espectador acompanha junto com o personagem o desenrolar da trama até o clímax. Isso poderia gerar uma maçada. Por quê? Porque a personagem principal é uma autista que faz da extrema sutileza de entonação, de pontuação e digressões uma constante nas suas fala. O personagem cria, quer queria, quer não, um fluxo de consciência para o espectador. Se na literatura trabalhar com o fluxo exige domínio técnico, no teatro é pior. O público não se pode dar o luxo de uma paradinha estratégica para descansar de um ritmo invariável. Contudo, essa maçada não ocorre. Pelo contrário. Por quê? Para mim, por fatores que guiam a primavera do teatro: atores encantando um texto enquanto são desenhados por um diretor.

Opa, peralá! Argumento didaticamente em 3 etapas o que acabei de falar:

O personagem principal fazendo as vezes dos 3 sinais recepciona a platéia. Com isso, ela já habitua o ouvido para a voz que a guiará.

Também, os atores dirigem-se delicadamente ao espectador. Transferem, assim, para o teatro, aquela relação terna que existe entra a obra literária e o leitor.

Finalmente, os atores ao se revezarem no personagem principal, mudam naturalmente o ritmo, as pausas, a cadência da projeção das falas. Pois, cada pessoa tem a sua maneira de falar, de se expressar. Com isso, a personagem ganha para si uma polifonia mecânica, ou seja, um diálogo que acontece não entre vozes diferentes na narrativa. É sim um dialogo entre o discurso principal e ele mesmo. Tal efeito faz com o ritmo se altere sem que se perca o tom, não cansando o público.

O uso dos figurinos colabora com a polifonia mecânica. Costurados com os mesmo tecidos e cores eles se adaptam ao físico de cada ator. Vale lembrar que são 2 meninos e 3 meninas. Apenas induzir o ritmo das falas não funcionaria para arrematar o público. É preciso mais. E o espetáculo dá mais. Além da personagem principal, os atores revezam-se na interpretação de todos os outros personagens que aparecem em cena. É um preparo que revela o domínio cognitivo dos atores sobre as interpretações. Eles transitam do personagem principal para o secundário, do personagem secundário para o principal, nos mais diversos matizes emocionais, ao longo dos 60 minutos da peça. O diretor trabalha com a quebra desses ritmos interpretativos, principalmente, no momento de conflito no espetáculo. Com isso, essa técnica não fica largada no espetáculo. Por exemplo, é lindo ver que o pai se torna um personagem esférico nas suas ações em cena, e não nas descrições feitas pela personagem principal. A mãe, apesar de bem construída, não tem valor dramático do pai. Isso, de certa maneira, respeita a lógica interna do texto. A maioria dos outros personagens serve de ponto cômico na tessitura do espetáculo. Resumo e ressalto que ao interpretarem todos os personagens, os 5 atores produzem uma variabilidade de gestos e sons, que orquestrados pelo diretor, fazem com que o discurso do personagem principal seja vivo e cativante. Contribui mais para esse encantamento quando cenário e a cenografia são usados na progressão narrativa. E isso é constante. Um exemplo feliz é a cena dos post it. Mas ela é surpresa. Só para quem for assistir.

Então encerro com um detalhe: As latas de ervilhas que são o almoço e janta da personagem, me lembraram o Woyzeck de Georg Büchner. Contudo, se a personagem de Büchner em sua apatia de anti-herói moderno e estático se assemelha a um certo autismo; a personagem de Cachorro Morto se filia a um herói clássico que adoro e muito. É o herói que desafia o destino, altera-o e tal como diz a personagem dando um salto criativo transmuta o seu mundo, a si. E nós, depois do último blecaute.

Léo Mariano é ator, iluminador, dramaturgo e estudante de letras. No distante ano de 1998 formou-se em Tecnico de Processamento de Dados. Tem 28 anos E mora em Taubaté. Email de contato: leoeso@ymail.com. Mais do Mesmo:

Veja album de fotos no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#AlbumList.aspx?uid=1661694269204223375

Voltar
 
Arquivo Afinidades
08 a 18 de fevereiro 2010
Veja Edições Anteriores
Zoom
 
Newsletter
Cadastre-se aqui e receba informações por e-mail
Nome:
E-mail:
  
Afinidades Eletivas | Supra Súmula | Afinidades TV | Por Onde Andei | Savoir-fair | É Pra Lá Que Eu Vou | Arquivo Afinidades

© 2008 Beto Kavalcante.com - Todos os Direitos Reservados
Desenvolvido por: Orange! WPI