Jorge tentou a morte três vezes.
Na primeira vez, levou-a ao deserto, a terra que ninguém mais visita,
e, chegando-se a ela, disse: se tu és a que és, traga de volta todos os
novos para que se re-conheçam, aqui, no reino das noites brancas, onde
o pão se fermenta na poesia e na pureza. Ela, porém, respondendo,
disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra
que sai da boca de Deus.
Então Jorge a transportou à cidade santa, e a colocou sobre o pináculo
do templo, e disse-lhe: se tu és a que és, lança daqui a vergonha e a
humilhação, o assassínio e o terror, a barbárie e a fome, a miséria e a
ignorância, a brutalidade e o endurecimento; porque está escrito: Ao
homem foram dados o amor e a razão, as duas maiores dádivas da criação.
Disse-lhe ela que é: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu
Deus.
Novamente a transportou Jorge a um monte muito alto; e mostrou-lhe
todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isso é
teu: as riquezas que se constroem com o crime; o endurecimento do
trabalhador, na brutalidade das horas fabris; a vergonha da mulher e
sua humilhação; a teoria do fausto, codificando acordos escusos; a
ganância do homem sem ilusões; a mentira do cientista que descobriu que
tudo é mentira; a terra devastada e infértil, este calor de inferno; a
hipocrisia das instituições das repúblicas; a teoria da pena,
repartindo o ódio e negando o perdão; a vingança brilhando
silenciosamente na íris dos ressentidos; a certeza embrutecida dos
vencedores. Tudo isso é teu, para que conheçamos a diferença.
Então, disse-lhe a que é: Vai-te, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás.
Então Jorge a deixou; e, eis que chegaram os vivos, e a serviram.
22/04/2006
Da Hora Marcada
Conto · publicado originalmente em 22/04/2006
17:50 — Escrito em Conto | Comentários registrados no original: 0 | Tags: hora marcada suicídio tentação
