Ana não tinha sonhos, nem sabia mentir. Quando virou moça, a estrela
rosa da manhã deixou em sua janela uma flor rubra, banhada de suor e
medos. A menina, nesse dia, andou mil léguas para beber leite e mel.
Voltou exausta e faminta. Dormiu e veio a noite do segundo dia. Em
sonhos, uma virgem cantava uma cantiga fina como a chuva; havia uma
terra negra e as primícias do amor e das dores. Ana comeu os frutos
mais doces nesse dia. A mãe morava distante, veio e lhe trouxe um
noivo. Beberam vinho na terceira noite. O sonho era um cavaleiro branco
de tez rude e terna, com um pássaro azul e branco no ombro direito e
uma espada. Para casar com o cavaleiro, a menina foi buscar num velho
baú de aranhas um véu avoengo, tecido pelas mulheres de outrora.
Vestida de medo e alegria, a menina casou, em sonho antigo, com seu
cavaleiro de espada rude e tez fraterna. O véu a ensinou a mentir e
tecer longas estórias de sua nudez.
16/05/2006
O Véu da Noiva
Conto · publicado originalmente em 16/05/2006
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