Meu filho me falou outro dia, depois de assistir a uma reportagem na
televisão, informando sobre a morte de uma menina de dez anos, que DEUS
DEVERIA FICAR DE CASTIGO!
É assim que o filho pensa o Processo Penal, conforme o pai o ensina.
Nós temos vários pais, uns grande, outros pequenos. Deus é um pai
grande, conforme nós foi ensinado desde pequenos. O Governador é um pai
pequeno, conforme nos mesmos definimos legalmente.
A teoria da pena na jurisprudência divina, que aprendemos nas Igrejas,
exige punição aos pecadores, até que se arrependam e reparem a culpa.
A teoria da pena na jurisprudência humana, que aprendemos nos livros de
penalistas, exige punição aos criminosos, até que se cumpra o prazo
legal, independente de arrependimento.
Eu ainda prefiro aquela teoria da pena puríssima que diz para perdoar
aos nossos inimigos setenta vezes sete. Eu estaria elevando o
criminalismo à condição de equilíbrio psicológico, mas como aplicar
isso em tempos de PCC?
Como pedir essa elevação moral à mãe da menina assassinada?
Meu filho não sabia, mas a menina não foi apenas assassinada. Ela foi estuprada, morta e esquartejada.
Meu filho pensava apenas em onde estava Deus, na hora de sua morte:
surdo aos lamentos da coitadinha?, cego à visão de seus sangue?, mudo e
inativo diante do livre arbítrio humano?
Eu prefiro pensar em onde estava o Governador, na hora de sua morte:
surdo aos lamentos dos excluídos?, cego à visão do sangue inocente?,
mudo diante do sistema que perpetua o crime?
O Governador tem mais a fazer que ficar preocupado com meninas mortas e
esquartejadas. Eu sei disso: mas eu não tenho mais ninguém, além do
Governador.
Minha dor, como pai e como cidadão, é que eu só tenho o Governador. Só
nos restou o pai menor. Só nos restou as leis, a consciência moral que
criamos dia-a-dia, a esperança de fraternidade nas políticas públicas.
Por isso, essa imensa responsabilidade de existir. Esse desvelo pelo
meu Ser e pelo Ser do outro. Esse respeito pelos infelizes, pois, como
eles, nós também fazemos parte de uma mesma casa.
Eu rezo pelo Governador.
Quero usar o instituto da eleição na mínima esperança de que ainda
somos capazes, por nós mesmos, de construir uma sociedade de homens e
não uma pocilga de animais imundos.
30/05/2006
O Governador de Castigo
15:50 — Escrito em Crônica | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Governador código penal estupro menina