OFÍCIO
Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
Enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
E dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
Serviços de excrementos em papéis caídos
Numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam para o inferno, se inferno houvesse
Pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio de minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
Para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
Que ocupo, desnecessário espaço de pernas
E de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
O mundo restará o mesmo sem minha quota
De angústia e sem a minha parcela de nada.
Nauro Machado
09/06/2006
Uma do velho padeiro
PoetasAfins · publicado originalmente em 09/06/2006
08:55 — Escrito em PoetasAfins | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Nauro Machado ofício angústia