06/05/2007
O Salto
PoesiasEletivas · publicado originalmente em 06/05/2007
até a leveza do salto tigrino
salto que fascina o olho distante
na sua fome que aferra a íris
e as tripas do bruto em fogo
na sua sede de sangue sempre
escorrendo entre as presas e garras
até a leveza do salto tigrino
mantêm-se pesado no chão
grudam-se as patas as garras rudes
na terra áspera ou seca ou mata
do peso à leveza eleva-se a fome
as tripas dentro carcomendo a hora
o olho em íris insatisfeito a sede
eleva-se lento como pássaro novo
aos pouco, vai medindo seu vôo
o ato que não erra o alvo
furor de dias e músculos exaustos
furor de aulas da fome antiga
um salto certo e justo não erra
quase como bala aloja-se na carne
antes um segundo antecipa-se
o ardor da ferida e o sangue
antes um segundo mínimo antes
arde a presa da fera em sangue
arde-lhe a fome e a bala dentro
a presa salta seu ardor de presa
afia na fome de aula antiga
como pássaro novo suas asas
a natureza da fera é sua presa
o sangue é sua justiça e paz
para o pássaro o leve e vôo
o ar suave e a comida leve
pássaro é quase nuvem dentro
plumas e cantos e cores
um pássaro está para a presa
assim como a garra esta para o vôo
ali a fera sua fome voa
um salto tigrino alvo e certo
um salto para a saciedade
cumpre-se sua natureza viva
o alvo a presa é dispensável se pensa
o alvo a presa cabe-se saber sangue
o alvo a presa inútil se voa
o alvo imóvel e veloz ágil e frágil
importa pouco como anda a fome
ela está dentro da presa as tripas
cada músculo hirto no instante alvo
cada mínimo fio de sua barba
tudo se move na fome ativa
amor de murmúrios entre as sombras
amor sob o véu do falso e pequeno
até o salto inteiro e repentino
como no velho muro
chispam súbitos lagartos
como os lagartos nas sombras alvo
agora o salto fatal sobre a fome
restará leve a fera em pássaro
antecipa-se a leveza no salto
há um pássaro de sangue na fera
há um pássaro na presa armada
e há cores em cada cor e a mata
e a mata inteira pára
como pára de suspirar o morto
como se morre no primeiro orgasmo
como pára o sol no eclipse
nada move no breve instante
tudo está em transe e force
e em quase adoração espera
nada move todos os pássaros mudos
tudo é silêncio e morto no instante
tudo se presta ao divino que é
como o jogador faz o gol de placa
ali é onde mora deus e outros dez
ali onde súbitos crispam velhos lagartos
a ambrosia do instante e o mel
quando a menina guarda o pai
ab eterno dentro no susto e medo núbeis
a menina presa dentro guarda o sol
e fecha os olhos mudos ao instante
o salto não é só branco susto
não é só músculos e sangue
não é só o ato perfeito da espécie
o salto é antes e também a voz
que desfia e tece e refia a rede
seu deslindar de coisas e fomes
que se guarda dentro fogueira eterna
sobre o que nos move deus em deus
enumera e nomeia os dez
o salto é antes do velho sua fome
é antes da leveza do velho pássaro
quando, entre brilhos, sob prismas
resta a memória de atos antigos
quando muito ou pouco honrados
resta-lhe a memória de outros vôos
o salto tigrino é para músculos hirtos
e quando a fome ativa seus poros
seu furor mais alto sanguíneo
sob o rubro brilho da verdade
assim é sem cultura o homem
um salto sobre a presa absoluta
um salto metafísico sobre o nada
e ainda há dentro do mesmo homem
sua fome de sangue antepassado
a cultura jamais redime a fome
jamais é mais que atos falhos
um alvo inesperado para o salto
a cultura é ter dentro onde mora
o salto tigrino e sua íris ígnea
até a leveza a fera pesa
até o absoluto resta a fome
até o inominável resta o salto
medindo músculo a músculo o alvo
21:23 — Escrito em PoesiasEletivas | Comentários registrados no original: 0 | Tags: tigre salto tigrino poesia fome