24/05/2007
As Mentiras da Globo
Tem-se falado muito, e mais uma vez, sobre corrupção. Os “importantes” que foram pegos pela Polícia Federal, na operação navalha, aumentaram a indignação geral contra alguma coisa. É bom que se acrescente, sobre o tema, uma reflexão diferente, extemporânea, já tão própria deste que lhes escreve. Creio que devemos compreender, além da justificável percepção do ludíbrio a que somos sujeitos, um outro sentimento desconfortável que nos surge porque reconhecemos, intuitivamente, que estamos roubando a nos mesmos e esse absurdo nos embrulha o estômago.
O corrupto rouba a si mesmo, afinal, ele também é contribuinte de impostos. Ao tentar tirar mais do que contribuiu, ele rouba uma parte que é sua e outra parte (a maior!) que é de todos. De qualquer forma, é um absurdo lógico – e ético. O homem comum, nós, vê o “ladrão descoberto” como um ícone de si mesmo. Daí sentir-se tão desconfortável. Se a lanterna apontasse para si, revelaria também esse absurdo... Além disso, há a percepção do ludíbrio: minha parte foi roubada, quem a devolverá? tanta gente passando fome ou tendo tão pouco dos benefícios da moderna idade e esses “descobertos” levando a parte do leão... nossa água está escasseando, nossos florestas acabando, nosso ecologia agonizando e esses poucos tentando viver como se os recursos do mundo fossem eternos...
Por essas razões é importante apontar os holofotes para outra categoria de corruptos: aqueles que não foram “descobertos”. Devemos nos lembrar que, se há corruptos que, por circunstâncias políticas, foram presos, há outros que, em razões de outros tantos interesses políticos e econômicos, estão soltos e à deriva: quem consegue identificar o quanto a Globo recebe pelo sistema da corrupção ou quanto paga de suborno para garantir seus privilégios nas rendas de publicidade do governo? as outras emissoras terão empréstimos junto ao BNDES? quantos sabem o preço de Alexandre Garcia para fingir-se indignado? como funciona os diversos sistemas de corrupção do Estado de São Paulo? porque um ministro do Supremo Tribunal Federal recebe mais do que um ministro do Supremo Tribunal Federal?
Vivemos uma civilização perfumada pela mentira, isso é verdade, mas não vamos colocar a culpa só na Mulher, como faria um escolástico. Nossa civilização judaico-cristã foi fundada no mito do Paraíso Perdido e eu sempre achei (acreditem!) esse mito muito injusto com a mulher. Essa história de ensinar o marido a comer maçã, e depois ser acusada de tê-lo conduzido para fora do paraíso, tornou-se emblemática das relações conjugais. A vergonha e o cinismo presentes nas regras de convívio social são uma herança odiosa para a mulher. A civilização representativa e simbólica descambou para a hipocrisia. Ela precisaria, então, reinventar-se e talvez nisto consista a possibilidade de uma nova civilização. Mas para chegar a essa nova era, ainda muito distante, seria preciso abandonar o batom, o renew, o chronos e todas as futilidades que só evidenciam a herança nefasta da “mentira”.
Eu particularmente gosto da mentira, aliás, como todo homem que tem o pau na cabeça. Não há nada mais inteligente que inventar artifícios para burlar a verdade. Levi Strauss disse que detestava a natureza e preferia quando os índios se pintavam. É isso mesmo, a civilização é uma vitória sobre o envelhecimento, mas é também um caminho sem volta: uma vez flamengo... Depois de abandonar a Natureza não podemos mais voltar. Não adianta as santidades vegetarianas insistirem nos malefícios da carne ou em quanto estamos acabando com a água do planeta. Agora, não tem mais jeito, somos civilizados e precisamos de água e de boi. A questão será como usar a inteligência para racionalizar os recursos disponíveis.
Essa é a questão fundamental. Mesmo não podendo mais voltar à Natureza, devemos saber o quanto a mentira está nos prejudicando. Quando somos hipócritas e prendemos apenas alguns corruptos e deixamos as sementes para os próximos anos, estamos, na verdade, alimentando a mentira. Quando as instituições, que não fazem nada, aparecem nesses momentos para tirar uma casquinha, estamos alimentando o dragão da mentira. Quando não olhamos o nosso próprio dedo sujo, também a estamos engordando.
A esse respeito, o “dedo sujo” das instituições da sociedade civil que defendem os interesses das minorias é uma forma terrível de corrupção. Não há nada mais asqueroso, do ponto de vista ético, que o “pelego”. Se um presidente de sindicato, v.g., conduz um movimento grevista, mas recebe “por fora” para manter inalterado o “essencial”, isso é profundamente revoltante. Meu estômago embrulharia menos, por outro lado, se o neto de um Senador da Bahia, estiver envolvido em alguma maracutaia...
E não pensem que estou entornando minhas blasfêmias irrefletidamente: quantos padres e pastores existem por aí que não acreditam na verdade que pregam, mas continuam mentindo com a justificativa “bem remunerada” de que estão ajudando os infelizes? Nesse caso, o padre ou o pastor é um “pelego” religioso e tão indigesto quanto o outro. Anotem aí: em Religião e em Orçamento só podemos falar a Verdade!
Todos devemos refletir profundamente sobre qual o mundo deixaremos para nossos netos. Esta civilização egoísta, que só se preocupa com uma geração, deve ser substituída por outra que tenha uma visão mais espiritualizada, sem os entraves da mentira. A mulher, desde a metade do século passado, de forma mais explícita, tem se despido, como forma de vencer suas vergonhas. Então por que o homem velho não pode socraticamente fazer o elogio público da virilidade dos rapazes? Quando os homens vão tirar a roupa?
Enquanto a Globo mostra os malefícios da verdade, naquele quadro do “homem sincero”, eu mostro os malefícios da mentira, para a sociedade como um todo, quando não se paga um empréstimo do BNDES.
19:49 — Escrito em Crônica | Comentários registrados no original: 0 | Tags: operação navalha mentira verdade corrupção Globo BNDES