05/07/2007

Prelúdio da Mãe Velha

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Para Carla R.

Lembrando que só faz sucesso quem, nomínimo, é médio! Quem é igual às massas, que, justas, pastam e esperam o condutor. Gasparetto faz sucesso porque é médio, fala a língua audível do povo, que não ouve Bach. No entanto, o utilitário Gasparetto não é um farol, é apenas um reprodutor. Ria.
Quem saiu da média corre o risco da história ou do hospício. É preciso escolher a história ( existem muitas para contar). É preciso ser útil. Não se pode deixar a verdade, apenas, nas mãos frágeis do raciocínio médio. Embora, se olhamos no fundo, somos todos divulgadores, pouco acima da média. Quem está pensando por nós está enclausurado nas torres de marfim das academias, fechados, nas investigações micro ou macroscópicas do que, no final, reproduziremos minimamente.
Esses pensadores são muito mais sofisticados. Passam a vida tecendo minúcias. E, por isso, são, muitas vezes, míopes. Não conhecem os assassinos do Estado. O trabalho deles é igual ao relojoeiro que, de tanto olhar as coisas mínimas, não conseguem mais enxergar as estrelas. É claro, há os pensadores do cosmo, os cientistas da História, que, de tanto olhar além das pernas, não conseguem ver o degrau abaixo. E como o cosmo é infinito, raros conseguem ser úteis.
É preciso então fazer a média, tentando não ser médio, para chegar à utilidade sem sofismas. A questão é que, para isso, muita vez, é preciso dizer o desagradável, mesmo que isso seja desagradável. Porque, depois se pode descobrir, que o dito desagradável não era verdade, mas só poderia se chegar a ela dizendo-o.
Não é verdade que o que não deve ser dito deve ser calado. Nada deve ser calado. Tudo cabe num poema. Tudo dever ter a cor da tinta, sob pena de esquecermos quem fomos. A linguagem é uma forma eficiente de pensar. 0Aquele que não sabe redigir vinte palavras tem problemas nas pernas. Algumas coisas, porém, só podem ser compreendidas por quem já chegou além da média. Pensar e repensar sempre é uma forma digna e útil de passar a vida. Aos poucos, vai se aprendendo a não ser chato, a não pegar a doença da vaidade acadêmica. Aos poucos vai se aprendendo a ser simples e simples divulgadores – sem que isso doa.
Gasparetto não fala mal da mulher, porque isso não é agradável aos ouvidos ( do povo). Mas, longe das audiências medianas, é preciso falar mal da mulher (e de tudo que for desagradável): da futilidade das magrelas à brutalidade dos assassinos; da crueldade da mãe que abandona o filho tenro ( sem justificá-la com a nem sempre justificável “depressão pós-parto”) ao banqueiro insensível que burla o compulsório do BC... É preciso discutir, no papel, a decisão da mulher que não quis ter filhos para servir ao mercado; é preciso discutir no papel a decisão do marido que sacrifica a mulher e o filho porque descobriu que tudo é mentira...
Todos os assuntos desagradáveis devem ser tratados, sem sofismas, sem sofisticação e sem hipocrisias, porque é preciso desconstruir o mal. Mas, jamais, devemos nos deter no mal. Jamais, devemos fincar âncora no desagradável, tentando encontrar em todos os pormenores da vida as sementes das lamentações. Pensar o desagradável, desmontando-o em palavras, é uma forma de chegar ( ou indicar) o caminho de sua superação. A utilidade do divulgador não está em oferecer um banquete de minhocas, mas de usá-las para adubar a terra.

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15:05 — Escrito em Crônica | Comentários registrados no original: 3 | Tags: nominimo carla minhocas utilidade da escritura