Para Carla R.
Lembrando que só faz sucesso quem, nomínimo, é médio! Quem é igual às
massas, que, justas, pastam e esperam o condutor. Gasparetto faz
sucesso porque é médio, fala a língua audível do povo, que não ouve
Bach. No entanto, o utilitário Gasparetto não é um farol, é apenas um
reprodutor. Ria.
Quem saiu da média corre o risco da história ou do hospício. É preciso
escolher a história ( existem muitas para contar). É preciso ser útil.
Não se pode deixar a verdade, apenas, nas mãos frágeis do raciocínio
médio. Embora, se olhamos no fundo, somos todos divulgadores, pouco
acima da média. Quem está pensando por nós está enclausurado nas torres
de marfim das academias, fechados, nas investigações micro ou
macroscópicas do que, no final, reproduziremos minimamente.
Esses pensadores são muito mais sofisticados. Passam a vida tecendo
minúcias. E, por isso, são, muitas vezes, míopes. Não conhecem os
assassinos do Estado. O trabalho deles é igual ao relojoeiro que, de
tanto olhar as coisas mínimas, não conseguem mais enxergar as estrelas.
É claro, há os pensadores do cosmo, os cientistas da História, que, de
tanto olhar além das pernas, não conseguem ver o degrau abaixo. E como
o cosmo é infinito, raros conseguem ser úteis.
É preciso então fazer a média, tentando não ser médio, para chegar à
utilidade sem sofismas. A questão é que, para isso, muita vez, é
preciso dizer o desagradável, mesmo que isso seja desagradável. Porque,
depois se pode descobrir, que o dito desagradável não era verdade, mas
só poderia se chegar a ela dizendo-o.
Não é verdade que o que não deve ser dito deve ser calado. Nada deve
ser calado. Tudo cabe num poema. Tudo dever ter a cor da tinta, sob
pena de esquecermos quem fomos. A linguagem é uma forma eficiente de
pensar. 0Aquele que não sabe redigir vinte palavras tem problemas nas
pernas. Algumas coisas, porém, só podem ser compreendidas por quem já
chegou além da média. Pensar e repensar sempre é uma forma digna e útil
de passar a vida. Aos poucos, vai se aprendendo a não ser chato, a não
pegar a doença da vaidade acadêmica. Aos poucos vai se aprendendo a ser
simples e simples divulgadores – sem que isso doa.
Gasparetto não fala mal da mulher, porque isso não é agradável aos
ouvidos ( do povo). Mas, longe das audiências medianas, é preciso falar
mal da mulher (e de tudo que for desagradável): da futilidade das
magrelas à brutalidade dos assassinos; da crueldade da mãe que abandona
o filho tenro ( sem justificá-la com a nem sempre justificável
“depressão pós-parto”) ao banqueiro insensível que burla o compulsório
do BC... É preciso discutir, no papel, a decisão da mulher que não quis
ter filhos para servir ao mercado; é preciso discutir no papel a
decisão do marido que sacrifica a mulher e o filho porque descobriu que
tudo é mentira...
Todos os assuntos desagradáveis devem ser tratados, sem sofismas, sem
sofisticação e sem hipocrisias, porque é preciso desconstruir o mal.
Mas, jamais, devemos nos deter no mal. Jamais, devemos fincar âncora no
desagradável, tentando encontrar em todos os pormenores da vida as
sementes das lamentações. Pensar o desagradável, desmontando-o em
palavras, é uma forma de chegar ( ou indicar) o caminho de sua
superação. A utilidade do divulgador não está em oferecer um banquete de minhocas, mas de usá-las para adubar a terra.
05/07/2007
Prelúdio da Mãe Velha
15:05 — Escrito em Crônica | Comentários registrados no original: 3 | Tags: nominimo carla minhocas utilidade da escritura

