Eu vi uma menina border na line.
Ela se aproximou de mim – estávamos numa piscina – muito timidamente, mas de forma evidente.
Começou a conversar, sem que eu lhe dirigisse a palavra, e contou coisas particulares da sua vida, que eu não havia perguntado. Disse que o pai havia abandonado a casa há pouco tempo, que tinha apenas dez anos, mas as pessoas pensavam que ela era mais velha, porque tinha os seios grandes...
Havia uma angústia e uma solidão imensas naquele relato estranho. Quase um pedido de socorro.
Que coisas estranhas os adultos fazem com seus próprios filhos?
Eu pensei na renúncia perfeita.
O que é isso?
Não é apenas renunciar nossa individualidade para acolher o outro (no caso, não abandonar a filha), mas também nunca reclamar ou se enaltecer do heroísmo pessoal, mas aceitar, conscientemente, a migalha do Amor que nos cabe.
Isso é a renúncia perfeita.
A questão é que sempre esperamos uma recompensa futura. Nosso velho gene animal (leia-se: a construção social da cultura e da história) está prenhe de egoísmo. Vencê-lo, como ao muro da vergonha, que mascara o Amor, demanda muitos séculos.
A menina borderline levará para toda a vida essa dor; e o que fará com ela, para o bem ou para o mal, não se pode nunca prever.