Há uma história, lida não sei onde, que diz que um rei muito poderoso mandou comprar vasos novos. O encarregado, muito zeloso, chegou à loja do fabricante de vasos e começou a percutir suavemente nos vasos expostos, como quem ausculta o coração oculto da argila.
Perguntado por que assim o fazia, respondeu:
− O rei exige apenas os vasos perfeitos, se houver algum vaso trincado, este deve ser eliminado.
Essa história é muito repetida nos meios religiosos com a interpretação da exigência de Deus por espíritos imaculados. Serve para ilustrar as regras moralizadoras de cada credo. Uma história tem um poder de persuasão maior que uma sentença legal.
Contudo, há uma dimensão sombria nesta alegoria moral, um aspecto que a ortodoxia religiosa prefere não contemplar, mas que me dói perguntar:
− E como ficam os vasos trincados? Devem ser relegados ao fogo eterno?
Somos humanos, somos falíveis, somos imperfeitos. Dificilmente, até onde os olhos alcançam, veremos um anjo entre nós. O rei não encontrará seu vaso perfeito preferido, pois tal objeto existe apenas no reino platônico das formas ideais.
A noção que podemos alcançar a perfeição no brevíssimo teatro de uma única uma existência é tão absurda quanto o desejo de tornar perfeito um vaso trincado.
Somos condenados à imperfeição, ou, se preferires comigo, condenados ao privilégio da humanidade.
Ainda que tal condenação não se estenda indefinidamente (segundo a teoria bastante plausível da evolução progressiva do "espírito"), permanecemos atados ao destino glorioso e penoso de nos tornarmos, dia após dia, versões ligeiramente mais aprimoradas de nós mesmos.
Talvez nossa beleza resida precisamente nestas trincas que nos caracterizam, nestas imperfeições que nos tornam únicos, como os vasos do ceramista japonês que celebra o kintsugi — a arte de reparar com ouro as fraturas, transformando a cicatriz em ornamento, a fraqueza em força, a imperfeição em uma forma mais elevada de beleza.