31/05/2020

Grande São José

Crônica · publicado em 31/05/2020

Meu pai era devoto de São José. Nunca soube o que ele vira no santo. Padroeiro da família, mas um nome obscuro na cultura católica.

Seria apenas influência do José de Ribamar Sarney que, para homenagear o homônimo, prestigiou o santo, ajudando, quando governador e senador, a melhorar a cidade de São José de Ribamar na região metropolitana de São Luís, intensificando a devoção ao santo?

Nunca vi meu pai em adoração a nenhum deus. Ele não se manifestava em fé para nenhum deus, mas gostava de São José. Provavelmente, acreditava em Deus, como homem simples que era e influenciado pela cultura de sua época. Entretanto, pesava uma sutil desconfiança naquele deus cruel das escrituras. Evidentemente, não dizia nada, para não melindrar seus contemporâneos e possíveis eleitores. E, como meu avô, aliás, nunca foi à igreja.

Sim. Essas são minhas influências. Um avô agnóstico, afeito a ocultismos de Blavatsky e um pai inteligente demais para acreditar em padres...

Lembro que, já militante do Partido Comunista na universidade, fui com meu pai visitar um alambique em Arari. O dono da cachaçaria pareceu me reconhecer das panfletagens do jornal A Classe Operária e de minhas opiniões anticristãs. Começou, então, a esbravejar, repentinamente, como se tivesse uma coisa dentro do peito, ardendo pra sair:

— Quem não acredita em Deus, acredita em pedra. (Achei a metáfora tão lindinha!).

— Eu tenho vontade de matar quem não acredita em Deus.

Vejam como um homem pode se sentir profundamente ferido se questionarmos suas convicções empedradas. A consolidação do pensamento religioso parece uma doença perigosa e de difícil cura.

O passeio foi azedado.

Meu pai, que tinha pretensões políticas, com mais experiência que eu, não pretendia mexer com esse vespeiro e, tampouco, alterar o mundo (acho que, aqui, ele não foi fiel a Cristo, cuja razão de existir foi e continua sendo “alterar o mundo”).

Mas voltando ao grande São José.

Queria fazer uma reflexão diferente sobre esse santo irrelevante.

O casamento de José com Maria não foi, acredito, esse romantismo todo que nos contam. Provavelmente, estava criando os filhos sozinho e precisava de uma esposa. O Sinédrio arrumou para ele uma menina que os sacerdotes judeus já tinham entojado.

José aceitou a menina, que foi rejeitada pelos sacerdotes judeus, com resignação.

José aceitou criar o filho de outra pessoa com longanimidade.

José trabalhou incansavelmente para sustentar a família, embora recebendo apodos dos que “sabiam das coisas”.

José protegeu a mulher e o filho bastardo (depois preciso contar a verdadeira história desse híbrido).

Acredito que José não rejeitou o menino porque, lá no fundo, já havia sido alcançado pelo Amor, que Cristo irradiava desde criança.

Talvez, o primeiro trabalho de Cristo tenha sido curar aquele homem, seu pai, das feridas morais do mundo.

Talvez, o Amor de Cristo tenha sido tão intenso que José conseguiu amar Maria, a menina abandonada. Olhar nela essa vergonha, essa fragilidade. E seu amor foi todo proteção.

Você acha que a grandeza é ser governador do estado?

Você acha que a grandeza é escrever livros?

Você acha que a grandeza é participar de uma academia de letras?

Sim. Há uma força bonita em vencer eleições. Há uma força bonita em publicar livros. Há uma força bonita em ser reconhecido e convidado a participar de uma academia de letras.

Mesmo assim, devemos lembrar que a vaidade não é a única forma de grandeza.

José nos ensina que há grandezas maiores que essas, por mais silenciosas que sejam.

Quantos homens na minha pequena e pacata cidade natal repetem o exemplo de José?

Eu lembro (e fui eu que vivi uma vida inteira com ele e tenho certeza) que meu pai tentou repetir o heroísmo de José.

Talvez, sua devoção tão forte tenha sido uma forma de se desculpar por, na sua opinião, não tê-lo conseguido inteiramente.

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