22/08/2026

passeio pelo dia

PoesiasEletivas · publicado em 22/08/2026

passeio pelo dia
tudo eh raro e esquecido

o arroz pilado pelo seu Hilton era sem agrotoxico comum, non bouillie
precisava cozinhar bem e sempre sobrava um pegado no fundo
disputado por todos

o peixe era oferecido cedo no quintal de casa e nem ia pra geladeira
bastava um pouco de limao e pimenta malagueta

dormir era coisa de velho
eu ia matar passarinho no fundo do quintal
mas isso foi antes de Jesus me aparecer no alto da goiabeira

o celular ocupa nosso tempo como um tirano
antes eram os gibis que animavam nossa imaginacao sem Hollywood
revistinhas que eram compartilhadas comunistamente agora sao as baleias da Noruega e as meninas no TikTok
e as analises politica de Rui Costa e economica de Jose Kobori e um milhao de filmes disponiveis no TouTube
dificil eh ler Jose Guilherme Merquior o livro de Giannetti sobre as citacoes eu o ouvi inteiro a caminho do trabalho a Ilusao da Alma o levou a ABL medalhao merecido
essa inquietacao de menino assustado em sua primeira encarnacao no planeta Terra foi bem aproveitada

a alma esta presa em sinapses e se perde devorada por vermes?
o sonho eh so digestao e moto continuo da consciencia que por sua vez esta na barriga dos aminoacidos e na liga dos axonios? o sentimento profundo da fe nao passa de fraqueza e ignorancia?
os santos sao baldos da potencia, epilepticos dos lobos temporais ou se conectam com uma dimensao transcendente que agora se resolveu chamar de multiverso?
um redutor logico se aplicaria ao humano? nossos afetos estarao limitados a psicologia de primeira
infancia skinneriana?

Stockfish enlouqueceu contra Torch

humildade!

o fisicalismo honesto sabe e se orgulha de sua necessaria limitacao
antes de usarmos silicio para implantar uma IA quantica chinesa em nossos cerebros
precisamos resolver a questao desse limite

ilude-se quem pensa que os ETs se interessam por bomba atomica
eles querem saber quem foi o namorado de Alfred Prufrock e o que a velha solteirona do Fernando Pessoa sentiu quando aquele moco lindo lhe rocou o braco
poesia e orgasmo
talvez seja o que sobrou ao humano

a memoria de minha merencoria infancia embora Puluca tenha pulado a linha abaixo do Equador e
desaparecido
embora o preto feiticeiro tenha morrido a faca embora o Concerto no 1 de Tchaikovsky nao toque mais no
alto-falante do padre
nem Les Chansons d Amour que ele oferecia as escondidas a Dona Conci
Le Premier Regard d Amour
(eu sempre os imagino no ceu dancando uma valsa francesa depois de tanta espera)
tudo sera mastigado pelo fogo crematorio do Jardim da Paz? como diz o poeta: tudo para cumprir uma exigencia organica?

amanha, drones assassinos e robos humanoides apagarao estas palavras
e eu nao terei existido
por isso nunca foi tao consolador viver

e que doce acalanto pensar que o velho Brand danca no ceu! e que doce acalanto lembrar Ulisses tentando abracar a mae! e que doce encanto desejar abracar a minha e lhe mostrar as chaves
enfim encontradas!

Escrito em PoesiasEletivas