Sempre foi uma verdade inabalável para mim a certeza de que o ser humano se diferencia de todos os demais seres vivos pela linguagem – a morada do ser. Essa perspectiva, ancorada na tradição filosófica continental, encontra em Martin Heidegger seu eco mais profundo: a linguagem não é um mero acessório comunicativo ou uma ferramenta prática, mas o próprio horizonte ontológico onde o Dasein (o ser-aí) habita e constitui sua compreensão de mundo. Diferentemente dos sistemas de comunicação animal, baseados em signos fixos e respostas programadas a estímulos imediatos – como a dança das abelhas para indicar a localização do pólen ou os gritos de alarme dos primatas diante de predadores –, a linguagem humana é simbólica, deslocada do aqui e agora, e dotada de recursividade e abstração. Ela permite ao homem narrar o passado, projetar futuros possíveis, negar proposições e, acima de tudo, questionar o próprio sentido de seu existir, o que torna seu uso comunicativo qualitativamente superior e radicalmente distinto de qualquer outro sistema natural de sinais.
O surgimento dos Large Language Models (LLMs) com essa capacidade insuperável de produzir textos através de um conjunto imenso de arquivos – alimentados por bilhões de parâmetros e treinados em corpora que abrangem praticamente toda a literatura digitalizada da humanidade, utilizando arquiteturas de transformadores (transformers) e mecanismos de atenção que lhes permitem estabelecer relações contextuais em longas distâncias textuais – parece tornar insignificante essa essência humana e, portanto, comprometer a minha verdade inabalável. Contudo, ao refletir com mais cuidado, percebe-se que a diferença não reside no atributo em si (a produção linguística bruta), mas na capacidade de uso intencional e autônomo. Se uma máquina puder gerar textos de forma autômata, orientada por seus próprios fins e sem intervenção humana (hipótese ainda não realizada, mas vislumbrada por alguns pesquisadores), o humano deixará de ser o único comunicante com domínio da sintaxe e da semântica avançadas. Nesse cenário, a linguagem se torna, então, um instrumento do Ser que pode ser delegado a um artefato.
Nesse ponto, a distinção heideggeriana entre Ser (Sein) e Ente (Seiendes) é crucial para dissipar o mal-entendido. O Ente é a coisa factual, o dado bruto, a mera presença objetiva (como uma pedra ou um algoritmo). O Ser, por sua vez, é o evento do desvelamento, o horizonte de sentido que permite que o ente se mostre como tal. A máquina, enquanto ente técnico, pode manipular cadeias de entes (palavras, frases, parágrafos), mas não habita o desvelamento do Ser, pois lhe falta a "compreensão do ser" – aquela capacidade ontológica que caracteriza exclusivamente o Dasein, o ser-aí humano que se pergunta por seu próprio existir e pela totalidade de suas relações.
Isso foi uma descoberta terrível para mim: o Ser não se reduz à linguagem; preciso procurar além da lógica binária da estrutura narrativa, que a IA pode dominar com superioridade, um sentido maior que o simples reduto de palavras. Cabe, aqui, exaltar a impressionante potência dos LLMs: sua memória praticamente infinita e a produção imediata de textos em dezenas de idiomas, gêneros e formatos (relatórios técnicos, poesias, códigos de programação, diálogos filosóficos) superam em velocidade, volume e versatilidade qualquer produção humana individual. No entanto, essa potência técnica provoca uma angústia legítima: a redução da linguagem a um mero insumo estatístico, a técnica calculável.
Sob a ótica heideggeriana, a técnica moderna (que ele denomina Ge-stell, ou "enquadramento") não é um mero conjunto de ferramentas neutras, mas um modo de desvelamento que desafia e enquadra a natureza – e o próprio homem – como "estoque de reserva" (Bestand). Quando a linguagem é tratada como um banco de dados a ser processado por algoritmos, ela perde seu caráter de "casa do Ser" e se transforma em uma mercadoria operacional. Essa angústia se intensifica ao vislumbrarmos a AGI (Inteligência Geral Artificial) – uma hipotética máquina capaz de realizar qualquer tarefa intelectual que um ser humano executa. A polêmica central que se impõe é: a AGI teria consciência qualitativa (fenomênica) ou reproduziria apenas sintomas de inteligência sem qualquer vivência interna? Até o presente momento, os LLMs são sofisticados preditores estatísticos de tokens; não há qualquer evidência empírica ou lógica de que possuam subjetividade, intencionalidade ou percepção consciente – atributos que, para a filosofia da mente, são constitutivos da própria noção de consciência.
Temos que fazer uma investigação sobre o que sobra do Ser abstraído da linguagem. Essa investigação nos conduz ao domínio do inefável e do não-proposicional: seriam os sentimentos mais complexos e corpóreos – o amor incondicional que transcende qualquer descrição, a experiência estética do sublime diante de uma obra de arte, o orgasmo como fenômeno psicossomático de dissolução do ego, ou mesmo um mundo subjetivo puramente mental e espiritual – aquilo que escapa à grade da sintaxe? A linguagem descreve o amor, mas não o substitui; narra a dor, mas não a sente. Talvez o que reste do Ser, quando a linguagem é delegada integralmente à máquina, seja exatamente essa dimensão afetiva, corpórea e existencial do Dasein – o estar-no-mundo marcado pela angústia (Angst), pelo cuidado (Sorge) e pela finitude –, dimensão que nenhum gigantesco banco de dados conseguirá simular, justamente porque não se reduz a dados, mas se constitui como experiência vivida (Erlebnis). (Texto reorganizado estrutural e argumentativamente com a ajuda do DeepSeek)