Deus estava triste, camaleão melancólico, e resolveu cumprir seu dever
sagrado de evitar o Mal no mundo. Tomou o mais terrível dos demônios e
o colocou em uma gaiola.
Espumas pela boca, babas de ódio, berros, blasfêmias, agonia da prisão,
o animal se debatia contra a jaula, sangrava a cabeça, quebrava os
pulsos em socos incontidos, impunha sua rebeldia sem limite com
iracundo desespero.
Séculos se passaram sem que o bicho alterasse seu comportamento,
continuava a suar em ira, babar e comer os próprios estercos.
Intercalava os gritos inumanos com palavrões e gargalhadas insanas.
Mais alguns séculos e já se podia ver o animal proferir longos
discursos de indignação e rebeldia, pelos quais questionava sua
condição. Cada palavra de seu discurso trazia o sabor do ódio e do
rancor. Daí termos que considerar sua filosofia equivocadamente
parcial. Nada acrescentou ao mundo, a não ser a constatação de que a
bile altera a língua do homem.
Após milhões de anos, encontraremos o bicho já sem palavra e sem ódio,
comido em sua fúria inicial, ele estará pacificado na idiotia. Não
chegou a nenhum lugar. Os olhos cansados são os de quem se torna
lentamente mineral.
O deus está satisfeito; e o humano, morto.
03/05/2006
O Demônio na Gaiola
Conto · publicado originalmente em 03/05/2006
08:30 — Escrito em Conto | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Demônio teologia
