03/05/2006

O Demônio na Gaiola

Conto · publicado originalmente em 03/05/2006
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Deus estava triste, camaleão melancólico, e resolveu cumprir seu dever sagrado de evitar o Mal no mundo. Tomou o mais terrível dos demônios e o colocou em uma gaiola.
Espumas pela boca, babas de ódio, berros, blasfêmias, agonia da prisão, o animal se debatia contra a jaula, sangrava a cabeça, quebrava os pulsos em socos incontidos, impunha sua rebeldia sem limite com iracundo desespero.
Séculos se passaram sem que o bicho alterasse seu comportamento, continuava a suar em ira, babar e comer os próprios estercos. Intercalava os gritos inumanos com palavrões e gargalhadas insanas.
Mais alguns séculos e já se podia ver o animal proferir longos discursos de indignação e rebeldia, pelos quais questionava sua condição. Cada palavra de seu discurso trazia o sabor do ódio e do rancor. Daí termos que considerar sua filosofia equivocadamente parcial. Nada acrescentou ao mundo, a não ser a constatação de que a bile altera a língua do homem.
Após milhões de anos, encontraremos o bicho já sem palavra e sem ódio, comido em sua fúria inicial, ele estará pacificado na idiotia. Não chegou a nenhum lugar. Os olhos cansados são os de quem se torna lentamente mineral.
O deus está satisfeito; e o humano, morto.

08:30 — Escrito em Conto | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Demônio teologia