Outro dia conheci um rapaz que estava planejando assaltar uma lotérica
da Caixa Econômica. Ele se reuniria com vários da mesma espécie para
executar o plano. (Curiosamente, nós sempre estamos nos reunindo por afinidades eletivas.). Fizeram uma reunião e planejaram tudo. A questão importante deste episódio é: por que “planejaram”?
O ladrão comum, o ladrão urgente, aquele que está premido por alguma
necessidade ( mesmo que seja a de se drogar...), esse tipo de ladrão
não planeja. Ele rouba pela necessidade imediata.
É por isso que podemos entender com facilidade o outro tipo: o ladrão
que planeja. Este é de uma outra espécie: seus valores são mais
sofisticados (embora a minha psicologia , que o interpreta, não o
seja); ele provavelmente tem sentimentos mais sutis; sente inveja
porque não possui algo que outro possui; sente ódio e revolta-se porque
descobriu que tudo é mentira; precisa usar sua inteligência para sair
da situação desfavorável que a vida o colocou... Então, ele “planeja”.
Atrai os comparsas que lhe comungam os sentimentos – lembre-se,
afinidades atraem.
O ladrão urgente (Dimas) sempre vai para a cadeia e sempre é punido.
O outro ladrão (inominado, talvez, para representar a todos nós) raramente é punido. O sistema funciona para lhe dar abrigo.
A sociedade cria as duas espécies: sempre foi assim desde Xerxes. E
permanecerá assim por muito tempo. O que podemos fazer (nos, os ladrões
arrependidos) é impedir que a sociedade os “estimule”, ou seja, que
lhes dê condições para prosperar.
Dessa forma, não podemos permitir que o homem tenha fome, que lhe falte
a cachaça com os amigos e, se possível, trabalho e estudo. Só assim
evitaremos o surgimento do Bom Ladrão. Não podemos deixar também de
criar mecanismos de “Controle” ( Tribunais de Contas, Controladorias,
CNJs, Coafs, Redes 9840, Transparências Brasil...) para evitar que o
Mau Ladrão identifique outros iguais impunes.
Isso não vai mudar facilmente: temos fome, nos falta trabalho, estudo e
cachaça; os filhos que nascem negros e pobres, muito provavelmente,
enfrentarão o demônio que abre a porta estreita do ganho fácil. Por
outro lado, temos “sistemas de controles” falhos: Tribunais de Contas
cujas decisões são desrespeitadas pelas outras Cortes; Coaf submissa ao
sistema financeiro; uma Polícia Federal excessivamente política; uma
Rede 9840 ainda envergonhada... Dessa forma, os filhos que nascem
brancos e ricos, muito provavelmente, enfrentarão o demônio que abre a
porta estreita do “planejamento”.
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PS: Um ardiloso amigo seminarista alertou-me que, segundo a tradição
católica (colhida em algum dos evagelhos que estão fora do Canon), o
nome do Outro Ladrão seria Gestas.
20/04/2007
Dimas e o Outro Ladrão
09:30 — Escrito em Crônica | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Corrupção Tribunal de contas ladrão Coaf Rede 9840 Dimas