17/07/2007

Mãe Velha (I)

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Eu me recuso a aceita que a mulher seja inútil, como pensam os padres, os maçons e as próprias mulheres. Não compreendo como uma criação complexa de Deus possa ser inútil; parece-me ilógico e contrário à inteligência. Por isso, resolvi refletir sobre esse assunto em uma série de artigos sobre a maternidade. Dizem que os assassinos são incapazes de entender com os sentimentos, pois não possuem sentimentos e, dessa forma, se tornam perfeitos pensadores lógicos. Eu sei que chamar Kant de assassino não é uma boa política com os filósofos, principalmente se não se desenvolve o raciocínio para demonstrá-lo com mais rigor. Mas isto é um ensaio e o assassino sou eu – ainda imperfeito de sentimentos e que precisa da analítica para entender coisas que a maioria dos homens entende com o coração.
Há dois tipos de mulheres: as que nunca pariram e, é claro, as mães. As primeiras, geralmente, ficam presas nas mocinhas que foram (para o bem e para o mal), ou seja, permanecem tentando repetir os verdes anos e não amadurecem para outras alegrias. As segundas conseguiram se desvencilhar das correntes do prazer efêmero e buscam a totalidade do feminino. É muito difícil explicar para as primeiras o que significa a maternidade, pois só entendem os acordos sociais e a vitalidade do orgasmo, muito embora, por instinto, sempre estejam buscando homens que lhes permitam se libertar. Essas, quando ficam velhas carregam um rancor e uma inteligência própria de homens, tornando-se, muitas vezes, bruxas no sentido negativo – entes endurecidos no mal. Poucas são capazes de sublimar a maternidade negada em maternidade ampliada, ou seja, poucas são capazes de se doar para os filhos órfãos de mães que sempre se encontram na sociedade e nas causas de caridade.
As outras, entretanto, geralmente, e, muitas vezes, por força da própria obrigação, alcançam o sentido do feminino, através do exercício da maternidade. As tarefas de aleitamento e afeto permitem abrir um caminho para uma nova sensibilidade que não havia na descuidada mocinha, cuja receptividade está agora ampliada. Não creio que a mocinha seja necessária: acho que isso é invenção dos homens que as mulheres, por carência de entendimento, absorveram (mas isso é outra história).
Como se percebe pelo meu “não-silêncio”, toda essa compreensão da natureza feminina é apenas teórica e de inclinação romântica. A maternidade seria uma espécie de pós-graduação do espírito. As mulheres, já por natureza aptas a pensar com o coração, seriam elevadas de grau na maternidade. Na nossa sociedade consumista (de mocinhas descartáveis e mães úteis até a chegada dos clones), pensar com o coração é um desperdício de energia. É, por isso, que as mulheres (e os homens que pensam femininamente) são apenas “toleradas” nas discussões teóricas (e eles e elas sabem disso).
Minha compreensão teórica, por mais se valha da sensibilidade artística, jamais chegará ao entendimento que a experiência oferece. A teoria é falha porque ela é revestida de palavras. Eu preciso explicar, por exemplo, o que é esse conceito idealista de “maternidade”, que não significa mães perfeitas ou mulheres santificadas, mas que resulta em uma espécie de “natureza materna”, que nem todas as mulheres possuem. O leitor, atento, argumentará que estou confundindo essa natureza materna com “instinto materno”. Muito bem, mas não é verdade: o instinto é uma parte do conceito de maternidade (e, acredite, não é tão significativo). Há outros elementos que o instinto não pode alcançar, pois é um componente puramente fisiológico e o homem é uma espécie civilizada. Ou seja, o que é puramente irracional torna-se racionalizado e, depois, espiritualizado. Então, para chegar à “natureza materna” teríamos que ter o instinto mais a linguagem mais a vontade testada na adversidade mais a elevação moral mais a renúncia mais o amor... Vejam como as palavras são insuficientes.
Essa explicação insuficiente poderia ser desenvolvida, não apenas sob o ponto de vista do pensamento sociológico ou filosófico de qualquer espécie, mas através de um pensar que pudesse penetrar na própria essência do objeto, um pensar “imergente”. Como não tenho nenhuma pretensão de escrever um tratado, vou resumir a teoria afirmando que a literatura poderia substituir esse pensar imergente. Ela já é, por sua natureza simbólica, um instrumento de análise psíquica muito eficiente. E não estou pensando em Dostoievski ou qualquer outro escritor de costumes. Toda literatura revela, dá a luz. A questão é que a temos visto sempre sob a ótica masculina e temos mantido o padrão masculino de pensar – esse padrão que se tornou folclórico com os alemães e suas lingüiças verbais. O que eu quero dizer é que não são necessários os sofisticados sofismas conceituais, tipo Jeweiligkeit: ser-a-cada-momento, basta a simplicidade do “natureza materna”.
A literatura é, portanto, uma forma feminina de filosofia, por mais viril que seja o escritor. Só falta que elas (e eles) saibam disso! Todos fomos educados nesta decadente cultura ocidental (uma embalagem que traz a “filosofia masculina”, o consumo em massa, a homogeneização, a vergonha e mais o brinde do “fausto”). As mocinhas são educadas para serem receptivas e os mocinhos para ficar calados. Daí, se produzirem mulheres sem voz e sem pensar e escritores obedientes e timoratos.
Muito bem, as mulheres, por sua natureza maternal e por sua educação judaico-cristã de precoce receptividade, são incapazes de raciocínios profundos. Seguem, na maioria das vezes, o que pensa o “cabeça” do lar. E da sociedade, por extensão. Donas das filhas e das netas, pensam que mandam no mundo, quando na verdade estão fazendo desejo dos pensadores: se o juiz novo ou um simples delegado precisa da neta para manter o sistema inalterado, elas a levarão, cordialmente...
A princípio, a leitora saturada de Montesquieu, identificará o fel de meu ressentimento. Muito bem, é verdade que corro o risco de não ficar calado, mas alguém deveria sacrificar a vida para dizer o que os outros temem. E eu devo pagar um preço por lavar as mãos. De qualquer forma, o certo é que passamos por uma época, em que o pensamento feminino é indispensável, no entanto, paradoxalmente, as mulheres não sabem pensar. E isto precisa ser resolvido; não com a imitação do falido pensar do falo, mas com uma geração de sensibilidades e desvelamentos, com uma geração de escritoras capazes de não se deixar enganar pela lógica masculina, mas seguir os próprios passos e o próprio coração. Errando; sendo, muitas vezes, desagradáveis e inconvenientes; mas trazendo, sempre, à luz; parindo as verdades, sem as quais o homem perecerá.

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13:50 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 0 | Tags: maternidade filosofia literatura feminina