26/08/2007

Toma Lá, Dá Cá

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A mercantilização das trocas sexuais




O sexo é um dos mais poderosos mecanismos de manutenção da vida. Não apenas pela óbvia propriedade de perpetuar a espécie, mas por outra característica: a capacidade de harmonizar os hemisférios energéticos. Essa frase dita por um guru de auto-ajuda, pode parecer coerente, mas, se o leitor refletir um pouco, verá que a primeira afirmativa, de tão óbvia e impregnada de senso comum, não precisa de argumentação, entretanto, a outra afirmativa – de que o prazer harmoniza hemisférios energéticos – não é algo fácil de aceitar. Afinal, o que seriam esses tais hemisférios energéticos? Seriam os chacras? Além disso, quem garante que o sexo está com essa bola toda?
O certo é que todo mundo sabe (a maioria por experiência própria) que sexo faz bem. Alguns ainda acrescentam: ao corpo e à alma. Se esse “faz bem” é coisa de harmonizar hemisférios, aí são outros quinhentos... Considerando apenas a experiência comum e deixando os tais hemisférios de lado, pode-se concluir (pela significativa amostra estatística) que sexo faz bem. Ora, tudo que faz bem, tudo que é útil deveria estar na vitrine, em outras palavras, deveria estar disponível a todos. É verdade que o sexo está na vitrine (opa! e como está!), mas não se pode afirmar que esteja disponível a todos. O mercado capitalista não está nem aí para o que seja útil ao homem, a menos que isso signifique lucro. Ele oferece a mercadoria sexo, mas não a torna disponível a todos.
Explicando: como moeda de troca, em todas as épocas da humanidade, o sexo sempre foi um produto abundante (desculpem o trocadilho!), porém a estupidez humana conseguiu torná-lo escasso. É que o homem criou tantos “envergonhamentos”, tantos melindres, tantos acordos sociais que só restou o sexo “animal” (esse que os gatos usam). Pouquíssimos são os que, tendo ou não o sexo “animal”, conseguem aperfeiçoar o prazer sexual de forma mais “espiritual”. A maioria das pessoas usa a energia sexual de forma pura, ou seja, apenas como descarga de uma tensão. Alguns chegam a decadência de fazer sem nenhum tesão. São as pessoas capazes de fazer sexo por obrigação (ou são obrigadas pelo Sistema ou são obrigados pela pobreza). Essa gente perdeu o viço, como se diz, e, para recuperá-lo, recorrem a exageros escabrosos, muito embora consentidos silenciosamente na sociedade.
Isso quer dizer que o sexo é escasso? Sim. Ele é usado para vender coisas (e a si mesmo); é usado como moeda de troca; é usado para dar sabor ao poder; é usado para manter fiéis os adeptos de todas as religiões; porém, raras vezes é usado para ampliar a humanidade do homem, ou, para dizer de forma mais clara, raramente é usado para aproximar pessoas verdadeiramente; para fazer os parceiros compreenderem as diferenças; para ensinar tolerância, benevolência, generosidade e compaixão. Ao invés de exigir ser servido (porque foi enganado?), seria preferível aprender a servir; ao invés de dar para ter, seria preferível dar sem esperar nada em troca; ao invés de servir os “diferentes” por obrigação social, seria preferível aprender a amar o “diferente”.
O prazer sexual (ou a energia sexual) não pode ser mercantilizado num medíocre “toma lá, dá cá” do mercado capitalista. Isso seria acabar com os últimos resíduos de dignidade da espécie humana. Até pouco tempo, as filhas da boa sociedade eram “vendidas” aos melhores pretendente. Hoje, é indigno um casamento arranjado (embora ele permaneça, para demérito das mulheres, que sempre são a parte mais frágil nesse comércio).
Cada pessoa deveria repensar sua conduta sexual, para identificar desvios. E os desvios não são o amor entre iguais ou os incestos. O que está fora da Lei é a ausência de Amor. A teoria do “toma lá, dá cá” não tem mérito de caridade. Quem está saindo com prostitutas não deve se preocupar com o que pensam as senhoras "respeitáveis" da boa sociedade, mas saber (lembrando as lições do Cristo) se as estão tratando como irmãs.

12:35 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Toma lá dá cá sexo