A mercantilização das trocas sexuais
O sexo é um dos mais poderosos mecanismos de manutenção da vida. Não
apenas pela óbvia propriedade de perpetuar a espécie, mas por outra
característica: a capacidade de harmonizar os hemisférios energéticos.
Essa frase dita por um guru de auto-ajuda, pode parecer coerente, mas,
se o leitor refletir um pouco, verá que a primeira afirmativa, de tão
óbvia e impregnada de senso comum, não precisa de argumentação,
entretanto, a outra afirmativa – de que o prazer harmoniza hemisférios
energéticos – não é algo fácil de aceitar. Afinal, o que seriam esses
tais hemisférios energéticos? Seriam os chacras? Além disso, quem
garante que o sexo está com essa bola toda?
O certo é que todo mundo sabe (a maioria por experiência própria) que
sexo faz bem. Alguns ainda acrescentam: ao corpo e à alma. Se esse “faz
bem” é coisa de harmonizar hemisférios, aí são outros quinhentos...
Considerando apenas a experiência comum e deixando os tais hemisférios
de lado, pode-se concluir (pela significativa amostra estatística) que
sexo faz bem. Ora, tudo que faz bem, tudo que é útil deveria estar na
vitrine, em outras palavras, deveria estar disponível a todos. É
verdade que o sexo está na vitrine (opa! e como está!), mas não se pode
afirmar que esteja disponível a todos. O mercado capitalista não está
nem aí para o que seja útil ao homem, a menos que isso signifique
lucro. Ele oferece a mercadoria sexo, mas não a torna disponível a
todos.
Explicando: como moeda de troca, em todas as épocas da humanidade, o
sexo sempre foi um produto abundante (desculpem o trocadilho!), porém a
estupidez humana conseguiu torná-lo escasso. É que o homem criou tantos
“envergonhamentos”, tantos melindres, tantos acordos sociais que só
restou o sexo “animal” (esse que os gatos usam). Pouquíssimos são os
que, tendo ou não o sexo “animal”, conseguem aperfeiçoar o prazer
sexual de forma mais “espiritual”. A maioria das pessoas usa a energia
sexual de forma pura, ou seja, apenas como descarga de uma tensão.
Alguns chegam a decadência de fazer sem nenhum tesão. São as pessoas
capazes de fazer sexo por obrigação (ou são obrigadas pelo Sistema ou
são obrigados pela pobreza). Essa gente perdeu o viço, como se diz, e,
para recuperá-lo, recorrem a exageros escabrosos, muito embora
consentidos silenciosamente na sociedade.
Isso quer dizer que o sexo é escasso? Sim. Ele é usado para vender
coisas (e a si mesmo); é usado como moeda de troca; é usado para dar
sabor ao poder; é usado para manter fiéis os adeptos de todas as
religiões; porém, raras vezes é usado para ampliar a humanidade do
homem, ou, para dizer de forma mais clara, raramente é usado para
aproximar pessoas verdadeiramente; para fazer os parceiros
compreenderem as diferenças; para ensinar tolerância, benevolência,
generosidade e compaixão. Ao invés de exigir ser servido (porque foi
enganado?), seria preferível aprender a servir; ao invés de dar para
ter, seria preferível dar sem esperar nada em troca; ao invés de servir
os “diferentes” por obrigação social, seria preferível aprender a amar
o “diferente”.
O prazer sexual (ou a energia sexual) não pode ser mercantilizado num
medíocre “toma lá, dá cá” do mercado capitalista. Isso seria acabar com
os últimos resíduos de dignidade da espécie humana. Até pouco tempo, as
filhas da boa sociedade eram “vendidas” aos melhores pretendente. Hoje,
é indigno um casamento arranjado (embora ele permaneça, para demérito
das mulheres, que sempre são a parte mais frágil nesse comércio).
Cada pessoa deveria repensar sua conduta sexual, para identificar
desvios. E os desvios não são o amor entre iguais ou os incestos. O que
está fora da Lei é a ausência de Amor. A teoria do “toma lá, dá cá” não
tem mérito de caridade. Quem está saindo com prostitutas não deve se
preocupar com o que pensam as senhoras "respeitáveis" da boa sociedade,
mas saber (lembrando as lições do Cristo) se as estão tratando como
irmãs.
26/08/2007
Toma Lá, Dá Cá
12:35 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Toma lá dá cá sexo
