Farei uma tela; imagino-a primeiro: madeira leve e firme, uma plaina para aparar as arestas; os pregos cuidadosamente fincados. Fez-se o primeiro movimento geométrico, que cobrirei, pudendum: a nudez vergonhosa do Quatro. Pano branco, fino, no qual derramarei um licor branco de tinta branca, para experimentar o velho tom do céu, o calor do paraíso e seu tédio de paz. Foi por isso que caímos: queríamos um frio festivo, o cheiro de muitas rosas, os gostos de muitas frutas, a diferença. A Lei é firme: o mesmo pariu a paz; e o diverso, a dor. Leio o branco; ali está ele, o Demiurgo, com as mãos brancas e as barbas, dançando um sonho, quando o menino espera a noite de Natal. Moldarei o branco - camadas uniformes, firmes , espessa: haverá um branco mais fundo, pequenos sulcos, texturas dimensionando caminhos, vales, tundras. Pintar só o branco já é um universo. O mínimo tom que altera até o centro, a nebulosa que se estende até o canto: eis o fundamento do mundo. Penso o branco, ali está completo o quadro. Devo macular sua pureza com outras cores? Limpo e asséptico, ali está uma saúde, um caminhar sem ambição. De repente, sinto a angústia daquele branco infinito. Desespera-me respirar tuas mesmas flores, sufoca-me teu eterno mesmo. Ah! Dor, que angústia é essa prisão? Como farei para libertar-me? Ele me olha pavoroso, o Temerário, o Iracundo, com sua corcunda e suas nádegas reais: me deixarás? sabes que além é a dor e o arco-íris. Eu vejo a lembrança de outras terras, quando a romã-ave e a manga-peixe-boi serviam aos viajantes inocentes. Eu lembro que minha irmã deitou-se ao meu lado e falou de seu primeiro beijo. Eu lembro que minha mãe costurava na velha máquina uma blusa fátua. E eu tinha um amor para olhar o rio e rir. Ali meu pai andava nu, carregando a enxada para foder a terra. E meus amigos - um era branco e o outro era preto. E eu mesmo era um pouco azul. Eu lembro do meu primeiro Deus, quando começou a nascer os pêlos púbicos: ele cheirava a bosta de pipira e tinha a boca vermelha de azeitona. Todas as horas nos ferem, mas o branco é excessivo. Quem se lançaria ao branco suicida? Os santos e os anjos. À luz que tudo repele. Deixai aos cegos tuas sendas. Deixai dormir o Temerário com sua ira branca e suas narinas de abutres. Eu tenho duas mãos e o sentimento do mundo. Peço que me concedas estuprar-te: lanço a tinta negra sobre teu seio imaculado, um pequeno ponto caindo como uma lágrima, vai compondo uma nova cor, mais viva, uma coisa que esta chegando, um cinza: orion.
16/10/2007
Orion
Conto · publicado originalmente em 16/10/2007
06:45 — Escrito em Conto | Comentários registrados no original: 1 | Tags: Oreon Deus Pintura
