Eu trabalhava num pequeno comércio comprado por meu pai em São Luís, quando ela surgiu à porta acompanhada de seu séquito feminino — mãe, filhas, tias, presumo, formando aquela constelação errante que a pobreza reúne sob o mesmo destino.
Primeiro mandou a filha mais nova pedir bombons. A menina aproximou-se mais como quem oferece, carregando nos gestos uma ambiguidade que minha inexperiência não soube decifrar. Jamais me ocorreu que a mãe pudesse estar negociando a própria filha em troca de sustento — se minha leitura das sombras humanas já é deficiente na maturidade, imagine naquela época de ingenuidade quase franciscana. Eu enxergava apenas gente pobre, sem alimento, que vagava pelas ruas, tentando sobreviver de alguma forma.
A mulher, pressentindo minha inocência, com aquela sagacidade que confundimos com dons sobrenaturais (grande parte do que chamamos mediunidade não passa de discernimento aguçado), pediu para ler minha mão .
Aquilo me pareceu curioso e, na qualidade de investigador psíquico de primeira linha (quase um pós-doutor), resolvi testar a quiromante .
Ela abriu minha mão e, com um breve passar de vista, arregalou os olhos de terror. Olhou-me tão espantada como se vira o próprio diabo. Foi um momento de suspensão temporal — um hiato no qual o mundo pareceu hesitar entre o real e o impossível.
Nunca esqueci aquele olhar, da mesma forma como nunca consegui decifrar completamente o que provocou tal reação. Ela prosseguiu sua narrativa, obviamente mentindo — até eu percebi —, inventando alguns percalços materiais e certas qualidades psicológicas genéricas, tudo para mascarar aquilo que efetivamente havia vislumbrado. E, como eu não dispunha de meios para forçar uma revelação, paguei e ela foi embora.
Desde então, essa pergunta me persegue como uma sombra: que terá ela visto? Um código do próprio Demônio impresso nas linhas do meu destino? Minha face verdadeira, despida dos artifícios sociais? A agonia sombria e o negror abissal de uma alma desistente? Ou talvez, dada sua natureza pervertida pela miséria, tenha se envergonhado diante da visão de um anjo?
Se eu fosse um megalomaníaco, aleijado de potência, optaria decerto pela última alternativa, mas me conheço o suficiente para aceitar meus defeitos e ainda conservo lucidez mínima para impedir que minhas limitações se convertam em delírio de grandeza.
Restou a dúvida e o aquilhão que essa mediunidade transversa deixou indelével em minha vida.
Que a cigana e sua filha sigam em paz e que eu alcance a minha desejada senilidade.