Toda indústria (na Academia se dá o nome bonito de Capital) carrega um componente de egoísmo e competição. Alguns insistem em chamar isso de virtude, mas, na prática, é um mecanismo de concentração de poder e expropriação sistemática. Não demorará muito para que o fervor quase religioso em torno da teoria de mercado seja visto como uma aberração histórica, uma tentativa ingênua de conciliar a acumulação sem limites com a sobrevivência planetária.
A indústria, em sua forma atual, precisa ser repensada. Não apenas porque impulsiona um modelo econômico baseado na destruição ambiental e na exploração do trabalho, mas porque naturaliza valores que deveriam ser questionados: competição desenfreada, alienação cotidiana e a permanente necessidade de crescimento. Seu impacto se manifesta em todas as esferas – da política, corrompida pelo financiamento empresarial, ao cotidiano do trabalhador, encapsulado na rotina alienante da produção, entre a brutalidade, o tédio e, agora, até o desemprego estrutural.
O marxismo compreende a indústria como um marco na evolução social, mas a vê como um fenômeno transitório, destinado a ser superado. A revolução burguesa substituiu o feudalismo com uma nova ordem produtiva, que, por sua vez, se desenvolveu do capital mercantil ao industrial, depois ao financeiro – e agora ao capitalismo totalitário chinês, um modelo que escapa às previsões clássicas.
Mas e se, em vez de nos limitarmos à teoria, tomarmos uma única fábrica como exemplo e nos perguntarmos: como reformular o sistema produtivo? Podemos imaginar um modelo baseado em princípios distintos? Algumas direções possíveis seriam:
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Substituir o egoísmo pela solidariedade na lógica da produção.
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Produzir de forma sustentável, respeitando ciclos ecológicos.
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Impedir que a indústria controle os processos políticos.
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Formar trabalhadores que possam ler Guimarães Rosa ou Ferreira Gullar sem sentir aversão.
Seria necessária uma ruptura estrutural, ou bastaria empurrar essas mudanças, pouco a pouco, dentro do sistema? Esse dilema atravessa a esquerda há séculos – a reforma gradual ou a transformação radical, via uma revolução armada?
Se há um setor que sintetiza os problemas acima, é o automobilístico. Nele, os piores aspectos do capitalismo se expressam em grau máximo:
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Egoísmo e acumulação – As cidades são entupidas de carros, a mobilidade urbana se torna um inferno, e a sociedade gira em torno da propriedade do automóvel, em vez de um planejamento racional do espaço.
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Destruição ambiental – O asfalto engole florestas, aquece os centros urbanos, envenena o ar e alimenta uma cadeia poluidora que inclui mineração, petroquímica e descarte de resíduos.
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Propaganda enganosa – O marketing vende um sonho de liberdade: estradas vazias, cenários paradisíacos, status social. Na realidade, o carro aprisiona – em congestionamentos, dívidas e dependência do petróleo.
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Captura do sistema político – O setor financia campanhas, influencia a legislação e molda políticas públicas para garantir sua hegemonia, enquanto o transporte público segue sucateado.
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Alienação cultural – Os valores promovidos não são apenas consumistas, mas reduzem o horizonte cultural da classe trabalhadora, transformando lazer e identidade em um pacote de entretenimento superficial.
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Exploração do consumidor – Modelos novos surgem anualmente para depreciar os anteriores, forçando compras constantes. A carga tributária, os custos de manutenção e o IPVA tornam o automóvel um passivo perpétuo.
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Apoio a conflitos geopolíticos – A dependência do petróleo alimenta guerras, ditaduras e disputas territoriais em escala global, consolidando uma economia de conflito permanente.
O automóvel é apenas um sintoma de um problema maior. A questão central continua sendo o modelo industrial que molda nosso tempo. Se a transformação não vier por uma revisão radical do processo produtivo, ele seguirá existindo para atender não às necessidades humanas, mas à lógica da acumulação.
Talvez, o primeiro passo para mudar uma sociedade, seja tomar consciência dos mecanismos ideológicos que a sustentam.