(escrito em 15/11/2022, antes do sábado fatídico de 7 de outubro de 2023)
Na minha rua, há um casarão muito antigo de uma velha e tradicional família de imigrantes. Lá não morava ninguém até bem pouco tempo. O último descendente dessa família resolveu voltar a morar lá. Não sei ao certo o motivo principal para ter retornado. Talvez, sua casmurrice o tenha feito detestável alhures. Pode ser que tenha o desejo de paz e sossego no lar de seus antepassados ou simplesmente busque um lugar onde se sinta protegido.
De qualquer forma, ninguém o quer por lá. Todo o bairro o detesta. Não consegui investigar pormenorizadamente as razões desse ódio: seria porque o homem tem uma cultura diferente? Ou porque, na sua empáfia, se acha superior aos outros e escolhido por Deus? Ou simplesmente porque é muito rico – de uma riqueza, dizem, conquistada na avareza (forma de se proteger da rejeição, por certo)? Haveria algum crime no passado da família que estigmatize os descendentes?
Não sei. O certo é que ninguém o quer no bairro. A antipatia pelo sujeito é enorme. Nunca vi um bairro tão unido no único propósito de expulsá-lo dali. As famílias, que quase não se falavam, agora vivem de cochicho pelos cantos, tramando algo contra o velho Dr. Israel.
Não entendo como ele ainda não percebeu que não é bem-vindo! Todos os dias tem alguma bosta de cachorro na sua calçada, para que ele pise nela ao ir trabalhar. Todos cochicham maldições pelos cantos: “esse velho miserável usa o mesmo paletó do avô”, ou então, “o desgraçado só se preocupa consigo mesmo e com sua fortuna”. Além de outros insultos impublicáveis...
A questão é que Dr. Israel não vê ou finge que não vê que todos o detestam no bairro. Ninguém duvida da legitimidade da casa que ocupa, pois sabem que pertencia a toda a geração de sua família, mas a questão não é essa. O fundamental é saber por que o sujeito é tão mal-amado. Por que todos o detestam. E por que ele tenta impor sua presença mesmo não sendo bem-vindo.
Não seria o momento de procurar ajuda psicológica para descobrir o que há em si mesmo que o faz tão detestável? Não seria o momento de tentar ser simpático, fraterno, compassivo e tentar minorar a antipatia, de modo a poder viver em paz e segurança?
Ninguém em sã consciência e minimamente instruído escolhe a força para impor sua vontade. A coerção só produz e alimenta o ódio que será derramado em algum ponto do caminho. O chavão é velho, mas sua velhice pode significar sabedoria: a violência só produz mais violência.
Com o tempo, a situação do Seu Israel vai ficando mais difícil. O ódio vai ficando cristalizado e os custos de revertê-lo são cada vez maiores. Mas, ainda assim, é preferível começar a mudar agora do que ver as agressões aumentarem de simples arranhões no carro para arrombamento e assassinatos…