Pensava que o filósofo, matemático e teólogo Blaisse Pascal era um dos poucos cientistas a se reconhecer a genialidade precoce. Entretanto, revendo sua biografia, pude perceber que ele pode ter, simplesmente, um ambiente altamente adequado ao desenvolvimento intelectual, já que perdeu a mãe aos três anos de idade e recebeu educação rigorosa do pai matemático. Ainda assim, é com ele e com seus Pensées, que quero começar este artigo.
"A imortalidade da alma é uma coisa que nos preocupa tanto, que tão profundamente nos toca, que é preciso ter perdido todo sentimento para permanecer indiferente diante dela. Todos os nossos pensamentos e ações devem tomar caminhos tão diferentes, conforme se esperem ou não os bens eternos, que é impossível fazer uma pesquisa sensata e criteriosa sem ter em vista esse ponto que deve ser o nosso último objeto."
Pensava também que o tema da Imortalidade tinha sido relegado a estudos religiosos e marginalizado pela ciência. Embora seja um tema espinhoso, que pouco se adéqua às grades do método científico, a pesquisa sobre a permanência da vida após a morte física possui muitos estudos sérios e competentes. Evidentemente, a sociedade industrial que financia essas pesquisas não está muito interessada numa teoria que considere valores importantes a parcimônia, a abstinência e a moderação, enquanto mecanismos que facilitariam a pós-vida... Lembro que um dos slogans do cartão Visa era “A Vida é Agora”, numa clara alusão à necessidade urgente de consumir imediatamente...
Acho que todos concordamos com Pascal que ninguém é indiferente ao tema da Imortalidade. Embora a maioria não o eleja como determinante na condução de suas vidas (o que é uma pena), alguma ideia sobre a imortalidade impactou na vida de todos, nem que tenha sido a mais infantil delas, como o dogma cristão do céu e do inferno.
Um desdobramento do tema, e que sempre foi pauta de estudos científicos, é a reencarnação, ou Palingenesia, como chamavam os gregos. Aliás, deve-se esclarecer que o conceito de reencarnação está presente em documentos mais antigos da humanidade, desde o Bhagavad Gītā, "Canção de Deus", texto religioso hindu e parte do grande épico Maabárata que é datado no Século IV a.C, desdobrando-se nos quatro textos dos Vêdas, que foram escritos em sânscrito por volta de 1500 a.C., até a civilização egípcia que, entre 3.000 a 3.600 a.C., com ele balizava sua filosofia religiosa. Pitágoras, por exemplo, que nasceu em 570 a.C., foi o primeiro a introduzir na Grécia a doutrina dos renascimentos da alma, doutrina que havia conhecido em suas viagens ao Egito e à Pérsia. Isso tudo serve para lembrar que nem Kardec, nem Chico Xavier inventaram essa teoria. Eles desenvolvem um tema que perpassa toda a história da humanidade.
A filosofia espírita, especialmente aqui no Brasil, onde encontrou graça no nosso caráter benevolente e pacífico, é onde mais se encontram obras sobre o tema. Aliás, ressalvado alguns belos textos de conteúdo doutrinário, quase toda a literatura espírita tem um fantasma de plantão. Nas outras religiões, salvo engano, pois não sou especialista, ocorre exatamente o contrário: a maior parte dos escritos é sobre doutrina e conduta religiosa e pouca coisa sobre os desdobramentos da vida após a morte física.
Localizei entre os escritos espíritas (e não me recordo mais onde – Borges iria adorar este imenso livro de areia chamado Internet...), um conto ou uma psicografia, se preferires, muito ilustrativa dessa religião: apresenta um conteúdo moral, fundamentado no princípio da reencarnação e possui um fantasma de plantão. A história, em resumo, é simples: um homem viveu honestamente, seguindo rigorosamente a religião que conhecia, e ao final da vida ficou doente e sofreu de tal maneira que só pensava em se matar. Provavelmente, metástase óssea, cuja dor intratável é uma das mais desumanas formas de sofrimento. Um dia, quando a fé que o mantinha vivo já estava se esvaindo, ele orou e pediu uma explicação aos céus: por que tanta dor, o que havia feito de tão grave na vida que estava a ser punido dessa forma.
Segundo o conto, os créditos do homem junto a Deus já eram suficientes para uma ajudazinha. Foi levado, então, em sonho a um lugar, provavelmente com um mainframe, onde podia contemplar os registros de suas vidas passadas. Grande foi sua surpresa quando se viu trabalhando honestamente numa fábrica de torturas na Idade Média católica. Conhecia todos os instrumentos de tortura e os sabia aplicar corretamente. Usava os ferros com pontas grossas primeiro, batendo com eles no peito do torturado, para não sangrá-lo. Usava um aparelho que dilatava os membros até a exaustão. Viu um velhinho, santificado pela fé intransigente e pela doçura da idade, receber marteladas no peito com uma espécie de pente de ferro. Começou a chorar, nesse momento, como que banhado por uma graça indizível, e agradeceu a Deus o privilégio da compreensão.
Esse conto é fascinante pela coerência doutrinária, pela lógica do código penal e pela clareza com que explica o que deve ser purificado no homem. Segundo a doutrina da reencarnação, as vidas sucessivas servem para purificar o homem – esta corda atada entre o animal e o além do homem, como dizia Nietzsche – de modo que, em cada vida, o homem pudesse se aproximar da perfeição. As falhas de uma vida não são punidas em outra, como incorretamente compreendia o homem do conto. As correções se dão sempre de forma a aperfeiçoar a pessoa que errou: suportando o mesmo sofrimento que infringiu a outrem é uma forma disso, como ocorre no conto. Mas a reparação poderia ser socorrer com o exemplo e com o trabalho outros tantos que houvera esquecido na indiferença. As variações são infinitas.
O que me fascina na estória e na teoria da reencarnação é a possibilidade de encontrar uma resposta para a inquietante e terrível pergunta que faz o Ateu nos Pensées de Blaisse Pascal:
"Não sei quem me pôs no mundo, nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo e sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto. Vejo-me encerrado nestes medonhos espaços do universo e me sinto ligado a um canto da vasta extensão, sem saber por que fui colocado aqui e não em outra parte, nem porque o pouco tempo que me é dado para viver me foi conferido neste período de preferência a outro de toda a eternidade que me precedeu e de toda a que me segue."