A velhice traz inúmeras consequências; uma das mais significativas é o amadurecimento da consciência, a capacidade de síntese das questões mais importantes da existência (como o sentido da vida, a existência de Deus, a temporalidade do homem...). Isso ocorre porque toda a experiência acumulada produz, aos poucos, uma compreensão mais clara das coisas. Este texto, longo, pretende relatar um pouco das minhas reflexões sobre esses assuntos. (Você deve estar pensando: como um homem que não "vendeu a alma" pode compreender alguma coisa? Pois eu acho que é exatamente por isso: há uma tendência natural de racionalização em quem não viveu as sensações). Abstraia-se do pacto e leia o texto.
Devo ter assistido a um filme de ação, desses que os americanos fazem pra entreter os operários, e sonhei com algo aterrador: estava em um helicóptero com dezenas de homens nus que serviriam de alimento para feras. Eram bichos do tamanho de elefantes, parecidos a javalis gigantes. Eu me segurava numa grade para não cair no charco, onde centenas dessas feras esperavam esfomeadas. Uma grade se abriu. Vi um homem ser lançado e ouvi o risinho debochado dos guardas que conduziam a operação (havia duas fomes a serem alimentadas ali: a das feras, cujo prazer era apenas a saciedade física, e a dos soldados, cujo prazer era apenas o gozo mórbido da morte). O corpo vivo do homem caiu entre as feras e não se conseguiu nem ouvir o grito: as feras o devoraram imediatamente, despedaçando-o sem deixar nem um fio de cabelo. Só restou o tumulto de feras insatisfeitas, procurando algum pedaço de carne.
Aquele homem branco e nu que vi cair estava agora segmentado nas tripas de dezenas de feras. Em qual delas ficou sua consciência? Imagine a consciência do homem dentro das tripas de algum daqueles bichos, gritando, agônica, tentando se libertar ainda, consciente das fezes ao redor, ouvindo barulhos ensurdecedores do lado de fora. Terrível. Terrível, não é? Imagine, agora, que você é esse homem (com a ideia de outra pessoa sendo devorada, já sentimos agonia; imagine se fizéssemos o exercício de nos colocar no lugar do outro). Feche os olhos e sinta o desespero.
Essa história pode muito bem retratar a experiência humana na Terra. Fomos jogados num mundo de feras. Estamos no meio dos instintos mais terríveis. Precisamos ter essa consciência. Como disse Nietzsche: somos uma corda estendida entre o animal e o além-do-homem, uma corda sobre o abismo. É urgente ter esse entendimento de forma bem clara: deve-se compreender essa sentença como uma verdade matemática.
Então, pretensiosamente — e sob o risco de um “cringe” inevitável —, vamos à síntese.
Há três estágios na vida:
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O estágio primitivo e animal, onde reinam os músculos, o sangue e os instintos. A "vontade" é apenas instintiva: se tem fome, caça; se tem sede, bebe; se tem frio, busca abrigo; se chega o verão de reproduzir, dança o acasalamento; só o instinto move. Só isso, nenhuma consciência: nenhum animal poupa a vida de sua presa aleijada; nenhum animal compartilha sua comida com outro se ainda estiver faminto. Apenas hormônios, bile e músculos.
Foi desse meio que viemos. Essa é a origem da raça humana. Essa é nossa herança genética, nossa filogênese: temos instintos na veia.
No diálogo Fedro, Platão descreve a alma como uma carruagem puxada por dois cavalos (o instinto e a razão), onde o "cavalo negro" simboliza os impulsos biológicos descontrolados. No Leviatã (1651), Hobbes defende que o estado natural do homem é guiado por desejos primitivos (sobrevivência, poder), numa "guerra de todos contra todos". Em O Erro de Descartes (1994), António Damásio, fisiologista, diz que os sistemas subcorticais são compartilhados com outros mamíferos. -
Por alguma razão ainda obscura (há quem especule a existência de um Criador; há quem especule aliens manipulando o código genético; e há a especulação mais estapafúrdia ainda, defendida pela própria ciência, pela qual o acaso criou a vida, como se a imensa complexidade da vida fosse parida pelo nada — e tem gente que acredita...). Mesmo que a ciência esteja se defendendo da fantasia metafísica das religiões, a única coisa que presta na sua teoria é a seleção natural: depois que a vida surgiu (para cuja hipótese não há verificação), o processo de evolução das espécies é bem documentado e plausível; ainda assim, sem prova convincente, um macaco se tornou racional. Não há nenhuma hipótese verificável. Entretanto, há uma ideia subjacente a todas as correntes de teoria: ao homem foi dada a consciência.
Os criacionistas advogam que algum deus ofereceu um "sopro vital" que dotou o homem de vida. Os evolucionistas advogam que uma longa e milenar seleção natural escolheu os mais aptos e mais habilidosos. Os fumadores de maconha advogam, como eu, que aliens manipularam o DNA de macacos para favorecer que os grunhidos fizessem sentido e as palavras pudessem surgir.
Eu creio que foi a linguagem que dotou o homem de consciência: grunhidos de terror do clã hominídio; grunhidos de advertência na família troglodita; palavras rudes para os agricultores, até chegar aos faraós e à filosofia de Platão e Aristóteles, refugiados na Hélade. O que distingue os homens dos animais é a linguagem e tudo o que ela é capaz de produzir: pensamento, raciocínio, explicação mítica, lógica, organização política, guerra, compaixão, artes, ciências...Nietzsche disse: “Fomos nós quem criou o ‘ser humano’ ao inventar a linguagem.”
Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo.”
Heidegger: “A linguagem é a casa do ser. Em sua morada, habita o homem.”
Vygotsky especula que a linguagem internalizada (pensamento verbal) estrutura a autoconsciência.
Mas, apesar da linguagem, nem todos os homens adquirem consciência — alguns permanecem presos nos instintos, que mais parecem pequenos cães domésticos, ou jumentos, ou ratos... Ainda predomina nesses homens o estágio animal; vivem para o prazer vegetal: churrasco, cerveja, praia, muito pó, sexo, fraude na licitação pra comprar pó, mentiras nas igrejas pra conseguir sexo e a certeza (de Falstaff) de que a vida é só isso.
Entretanto, há outros humanos que desenvolveram a consciência de si e, com isso, desenvolveram potencialidades: nas artes — belíssimas obras da música (A Sinfonia n.º 9 em ré menor, op. 125, Coral – a Nona de Beethoven), da pintura (A Conversão de São Paulo, do pintor italiano Caravaggio), da dança (Nijinsky, o “louco” dançarino russo), da escultura (O Beijo, de Auguste Rodin), do cinema (Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa), da literatura (Quincas Borba, de Machado de Assis, e A Máquina do Mundo, de Drummond); nas ciências — homens que se dedicaram à pesquisa e à experimentação, de modo a criar vacinas e diminuir as mortes dos seus semelhantes (Edward Jenner descobriu a vacina antivariólica); na política — homens que desenvolveram sistemas que permitiram dirimir conflitos e harmonizar as diferenças entre os povos (Martin Luther King morreu pela causa da igualdade entre os indivíduos).
Um homem que tem consciência de si pode, individualmente, desenvolver suas próprias potencialidades, sua própria Potência de Existir (alguém leu aqui o “brilhe sua luz” crístico?). E, ao desenvolvê-la, seja nas artes, nas ciências, na moral, seja em pequenas ações cotidianas de excelência, este homem está se conduzindo ao terceiro estágio. -
No terceiro estágio, não há instintos (sangue) e a consciência já não é apenas plena de si mesma, mas plena do “nós mesmos”. A consciência está sendo dirigida, gradativamente, à iluminação. Aqui, a Liberdade e o Prazer, num sentido mais amplo, assim como o Amor e a Sabedoria, são princípios fundamentais.
Esse estágio não é exercido fisicamente; por isso, alguns o chamam de “estágio espiritual”. Porém, a palavra espírito implica uma coisa ainda física, o que prejudica o conceito. “Algo que pensa”, quando estamos em meditação e se separa do corpo, não é nada material.
Isso é absolutamente básico e óbvio: se há um mundo exclusivamente do instinto (animal) e um mundo no qual instinto e consciência sobrevivem juntos, deve haver um mundo no qual a consciência, que superou os estágios anteriores, sobreviva isoladamente.
Daí a ideia de reencarnação, vinculada desde as mais antigas tradições até hoje: a consciência que não superou seus instintos continuará voltando ao mundo físico até zerar seu carma.
É isso que se diz desde tempos imemoriais, pelas mais diversas tradições: a linguagem, ao produzir a consciência, obviamente produz a tentativa de superação do instinto e da própria consciência de si. Lembremos o homem primitivo: o medo do trovão, associado à morte, depois do advento da linguagem, foi ritualizado em religião, ou seja, a linguagem criando explicações “lógicas” (ainda que míticas) para o fenômeno. Estruturalmente, é só isso: desenvolver ao máximo a consciência do homem para levá-lo a superar suas limitações, desenvolver suas potencialidades e brilhar exclusivamente.
Pense a consciência pura não no sentido religioso, pois toda religião é apenas uma consciência primitiva e, mesmo, um obstáculo à pureza. As religiões são, portanto, entraves à consciência pura, na medida em que se fundamentam no mais instintivo dos materiais da consciência: a fé. Superar (ou desenvolver) o conceito irracional e primitivo da fé é uma tarefa imensa, pois na consciência também há sinapses que ficam viciadas, assim como ficam viciados os neurônios em cocaína. Os homens atuais estão viciados em cocaína e em religião. São escravos. Na droga, há aqueles que têm consciência da escravidão em que vivem e tentam se libertar; nas religiões, raramente há alguém consciente de sua situação de escravo. Jamais um fundamentalista islâmico negará seu Alá. Jamais um fundamentalista judeu negará seu Javé.
Toda religião obstaculiza o desenvolvimento da espiritualidade, pois ampliar a espiritualidade é o caminho básico para a consciência pura. Posso aprender com Jesus, meu bastardo favorito, e posso aprender com Buda, meu mentiroso favorito, assim como posso aprender com Spinoza e seu judaísmo transverso. Isso é espiritualidade ampliada. Mas alcançá-la pode levar alguns anos (ou algumas encarnações).
Além disso, nunca saberemos se não haverá novos estágios além desses e se só conseguimos intuir o terceiro estágio especulativamente (imagine alguma coisa além das ondas gama…).
Por ora, cabe-nos compreender duas coisas: -
Ter consciência dos três estágios da vida: há um mundo animal exclusivo; há um mundo misto de animal consciente; e, obviamente, deverá existir um mundo exclusivamente consciente. Parece que, ao convivermos com os animais, favorece-nos a impressão imediata do primeiro estágio (como se houvéssemos sido deixados a conviver com animais para, compreendendo a diferença entre nós e eles, pudéssemos despertar para a fase evolutiva seguinte). Ao fazermos a distinção entre homens e animais, identificamos a linguagem como elemento diferenciador. A conclusão parece bastante óbvia: deverá haver um mundo superior ao humano, no qual o instinto animal esteja eliminado, como degrau evolutivo superado. É uma lógica simples.
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Depois de ter consciência dos três estágios e admiti-los como o sol brilha todo dia, deveríamos alterar a nossa conduta existencial com base nessa premissa, no sentido de nos prepararmos para a etapa seguinte e diminuirmos os giros da roda de Samsara.
Quando observamos o mundo animal e o mundo humano, parece-nos tão simples e óbvio que exista uma sequência evolutiva entre o animal, o homem e o além-do-homem (para usarmos a terminologia nietzschiana), que não conseguimos compreender como a grande maioria das pessoas ainda insiste que a vida cessa com a morte. Parece que “aquilo que pensa” não pode morrer, porque não está vinculado a nenhum neurônio específico, não resulta do funcionamento da rede neural (é independente das sinapses e só se serve delas para obter dados do ambiente externo e interno). Reconheço que essa é uma tese controversa. Se abrires o cérebro com a navalha de Ockham, não encontrarás alma alguma...
Quando um instrumento neural é quebrado, como no AVC, no TC, na esquizofrenia, na demência, no Alzheimer, “aquilo que pensa” não pode se expressar adequadamente. Só isso. O cérebro trincado é como um instrumento imperfeito. A música ruim, nesse caso, não significa necessariamente que o instrumentista seja incompetente, apenas não pode se expressar adequadamente. Em alguns casos, é possível consertar o instrumento e podemos ouvir a boa música novamente. “Aquilo que pensa” estava ali o tempo todo.
É óbvio que, algumas vezes, “aquilo que pensa” está tão próximo do animal que se manifesta na vida de forma doentia. A maioria dos casos de transtornos psiquiátricos não passa de “músico ruim”. Alguns casos, porém, são instrumentos quebrados; mas a maioria mesmo das pessoas é apenas imperfeita (seja porque nunca quiseram evoluir, sempre aceitando as regras culturais fáceis das religiões alienantes e controladoras; seja porque suas “marcas kármicas” assim o determinam).
A questão fundamental que se coloca será, portanto, a de fazer “aquilo que pensa” sair do seu estágio animal: seja realizando o reparo do instrumento quebrado do psicótico, seja ajudando o político inescrupuloso a superar sua marca kármica. Essa tarefa é exaustiva e conta, evidentemente, com a ajuda daqueles que, alcançando a consciência de si mais elevada, são felizes o suficiente para externar sua alegria a outros homens. E não pense que são seres angelicais, alçados a grandezas federais. Algumas vezes, podemos vê-los na renúncia de uma mãe, na generosidade de alguém mais rico, no trabalho de um médico competente, na bondade de um analfabeto... Qualquer ato humano que implique superação do instinto básico pode servir de exemplo. É claro que a admoestação dos religiosos ao bom comportamento moral ajuda. O trabalho cuidadoso do psicólogo ajuda. Mas é bom ter em mente que, antes de limpar a ferida dos outros, precisamos estar com nossas mãos limpas. Cuidar de si mesmo ajuda a salvar milhões de vidas (algo parecido com as admoestações dos religiosos: o amor cobre uma multidão de pecados).
Ter consciência desses estágios não resolve nada, evidentemente. Trata-se de uma simplificação pedagógica para facilitar a interpretação do curso da caminhada evolutiva. Assim como os primitivos acreditavam nas leis de Moisés ou nas suas divindades infantis, assim também precisamos, nos dias atuais, de um “roteiro para a consciência pura”. Aliás, não resolve nada porque os instintos, por sua força física, continuarão poderosos (hormônios sexuais dominando a vontade e a ação e drogas estéticas dominando a consciência). Não resolve nada porque a consciência de si ainda está infantilizada pelas religiões, cuja função é apenas o domínio de classe e não o alimento da alma (evangélicos, católicos, maçons e judeus ainda acreditam no céu e no inferno, e que a alma fica numa caixa arquivada esperando o Juízo Final). Essas ideias toscas dificultam a caminhada...
Também não se trata de lutar contra os instintos, como se preconiza em algumas práticas religiosas, mas compreendê-los e exercitá-los convenientemente (dominá-los e não ser por eles dominados). Isso é tarefa de uma vida. Aliás, é para isso que envelhecemos: para pacificar os instintos e realizar a síntese da trajetória. O velho come menos, fode menos, dorme mais e pensa mais.
É preciso ter em mente a necessidade de elevação da consciência. A cada passo dessa escada evolutiva, chegaremos mais próximos da felicidade (da leveza angelical, da serenidade, da liberdade volitiva e da alegria verdadeira). Quando digo “cada passo”, estou sendo pragmático: significa estudar mais; amar mais; ter mais compaixão; ter mais empatia pelo outro; reconhecer que nem todos estão no mesmo nível evolutivo; cuidar dos outros como força para superar o instinto de individualidade; libertar-se da ganância das coisas materiais, que é apenas desejo de posse do cão selvagem; desenvolver suas potencialidades com excelência e fazer brilhar sua luz; e, principalmente, entender com clareza que “aquilo que pensa” não morre já é um bom começo.
Se compreendermos que nos distinguimos dos animais exatamente pela capacidade de criar coisas imateriais, já estamos no bom caminho. No final, descobriremos que só existe o imaterial, que todo o mundo físico é apenas instrumento para a orquestra do mundo.
Purificar o instrumento que somos, ao final, em “espírito”, é tarefa de uma vida — ou várias. Por isso, não se deve desesperar egoisticamente nesta vida. Somos tão egoístas e individualistas que desejamos tudo para já. Quando dizemos para alguém: “prepare-se para a outra vida e faça o seu melhor agora”, ninguém consegue compreender ou aceitar. Querem tudo imediatamente.
Enfim, vivenciar o instinto sem ser por ele dominado; cultivar a prática da consciência de si, através do estudo constante, para desenvolver o senso crítico e desvelar as incógnitas que a sociedade tenta nos ocultar, reconhecendo a dominação imposta pelas religiões e culturas de castas; além de trabalhar sempre, para vencer o medo do futuro e da pobreza; cultivando o Amor e todas as virtudes necessárias para a pureza da consciência.
Do fundo do coração, espero que este longo texto tenha sido útil para você que chegou, heroicamente, até aqui.
P.S.: O título é uma mentira deslavada...