"Sim, acordou alguém... Há gente que acorda. . ." (*)
Estava fazendo zazen aqui em casa hoje e resolvi escrever algo útil, para me desculpar por ter peidado no zafu. É, acontece! A gente pensa que meditação é uma coisa chique e inodora, mas ela é bem trabalhosa.
Vocês sabem como funciona o cérebro? Deixa eu explicar, que sou neurocirurgião ad hoc. O cérebro funciona da seguinte forma: primeiro, ele é alimentado pelos sentidos. O que vem aos olhos (principalmente), aos ouvidos, ao paladar, à pele e ao nariz são codificados dentro dele em regiões específicas. Se a informação vem do ouvido, o cérebro manda para um departamento específico; se vem do olho, para outro departamento. Depois, ele faz uma análise da informação. Compara com a informação inicial - lá da infância (aquele cheiro de manga lembra o cheiro daquela fruta - manga - que você comeu em Arari). Pronto, a memória serve para reorganizar as informações. Acontece que esse é o mundo externo que chega ao cérebro e ele precisa decodificar (sistema nervoso somático).
Agora, pense na trabalheira. Além das informações externas que chegam ao cérebro pelos sentidos e que precisam ser analisadas para que o indivíduo possa se movimentar e viver, ainda existe a tarefa de trabalhar as informações do mundo interno. Ou seja, todos os órgãos internos são controlados pelo cérebro. Ele precisa controlar o fluxo sanguíneo que sai do coração, seu batimento, acompanhar a limpeza dos rins, etc. Todo um imenso mundo que não temos noção consciente. É um trabalho automático, quase como um robô funcionando 24h por dia (sistema nervoso autônomo). Por que isso acontece? Para que o trabalho de "aquilo que pensa" se concentre na consciência. Já imaginou se tivéssemos que mandar o coração bater e ainda dirigir e atender o celular? Ia ser o caos. Então, o mundo interno (físico) ficou encarregado pelo robô e o mundo externo por "aquilo que pensa".
Ótimo, até aqui tá tranquilo.
Agora, deixa eu complicar um pouco mais: tu sabia que "aquilo que pensa" tem um patrão? Pois é, eu também não sabia. Esse patrão manda em tudo, tanto no "aquilo que pensa" (vamos simplificar e chamar de mente?) e também no robô. Ou seja, ele é uma espécie de Emílio, dono da Odebrecht. Você deve estar pensando ("aquilo que pensa" em ti tá pensando): "poxa, a ideia de mente e de robô fica fácil de compreender, mas esse Emílio aí tá foda..."
Deixa eu te explicar:
O patrão da mente é tão difícil de se ver que parece aqueles Papas antigos, que ficavam entocados no Vaticano e pouquíssimas pessoas os viam. Quando eles saíam para coroar algum rei, os simples mortais o viam e diziam: "olha, esse FDP desse papa existe mesmo!" Pois é. Hoje o Papa tá sem vergonha e aparece pra todo mundo, mas antigamente era raríssimo achar alguém que o tenha visto.
O patrão da mente deve ter fobia social, porque quase ninguém o vê. Por isso, a maioria das pessoas acha que ele nem existe. Mas existe sim. E como podemos conhecê-lo?
Bem, eu só conheço um caminho. Um atalho pela RACIONALIDADE. Tem um povo aí da Nova Era que inventa umas paradas loucas, mas eu não entro mais em paradas loucas: o máximo de droga que eu uso é um pouco de poesia de vez em quando.
Qual é o caminho da racionalidade? Deixa eu explicar:
Quando você está meditando, sentado no zafu (sem peidar), quietinho como um pintinho com frio, você precisa aquietar "aquilo que pensa" (a mente). A ideia básica é concentrar toda sua atenção num ponto qualquer, ou nos sons em torno, ou, ainda, num único som do ambiente. Fazendo isso você vai conhecer rapidamente sua mente. Ela vai aparecer e tirar sua atenção do som ambiente e te jogar para um pensamento qualquer ("tá faltando papel higiênico na casa", "não esquece de pagar a multa..."). E vai quebrar a concentração.
Os budistas chamam a mente de "macaquinho bêbado". Ele não para, vive pulando de galho em galho. Olhar o macaquinho agitado é uma delícia. Eu adoro. “Filho de uma macaca, te aquieta!" E ele: "tô nem aí pra ti". E assim eu (nós todos, até os monges mais experientes) passamos nossos 40 minutos de zazen brigando com esse FDP desse macaco.
Nossa mente (lembre-se: é "aquilo que pensa") não pode parar por um único motivo: ELA NÃO FOI FEITA PARA PARAR. Ela foi feita pra ficar agitada, mesmo que seja só com as coisas do mundo externo. Tem que pensar no passado, no presente e no futuro. Tem que pensar toda hora no trabalho que está executando. Tem que pensar no trânsito, na comida que come, no namoro, na casa, na arrumação, na multa, no relógio, no supermercado, no controle financeiro... Ela não foi feita pra ficar parada. Por isso, muita gente não consegue fazer meditação.
Às vezes, a agitação é tão excessiva que a pessoa tem crise de ansiedade, crise de pânico, depressão, pode enlouquecer e até se matar. Daí a importância da meditação. Ela é apenas uma técnica de mandar a mente tomar banho numa cachoeira, passar umas férias nos Lençóis Maranhenses. A meditação diz: "Te acalma, macaco doido, fica quieto aqui. Vem relaxar um pouco".
E, se você consegue relaxar um pouco, você já tem um ganho enorme. Sua mente fica mais limpa, mais clara, mais suave, mais tranquila, mais preparada para enfrentar os desafios da vida.
E, se você consegue relaxar um pouco, você vai conhecer o macaquinho doido. Cara, se você fizer meditação e conseguir perceber que sua mente muda de lugar para outro, como um macaquinho bêbado, você já terá feito uma grande evolução. Se você tiver o distanciamento para perceber sua mente funcionando, isso já terá valido um curso inteiro de graduação. Saber que sua mente muda os pensamentos toda hora, que não fica parada de jeito nenhum, vai te trazer um poder imenso.
Agora vamos voltar ao patrão da mente.
Você vai perceber, na meditação, que os pensamentos surgem e atrapalham a concentração. Algumas vezes, começam com uma palavra. Outras vezes, é uma imagem. E, outras ainda, uma palavra que não tem nada a ver e, “do nada”, aparece na sua mente. Tudo é sua mente querendo sair da imobilidade para ir para o mundo que ela conhece: a agitação.
Quando você percebe sua mente funcionando, você está distante. É como se você estivesse de fora, olhando o macaquinho brincar. Isso significa que VOCÊ NÃO É O MACAQUINHO. Sua mente está lá e você está aqui mandando ela parar e se concentrar em um som apenas do ambiente. Você vai perceber que VOCÊ É O PATRÃO DA MENTE.
Existe um "eu profundo", que é você mesmo, que é diferente da sua mente, aquela que não para e fica sempre agitada pensando sempre, e também diferente do robô, que controla os órgãos internos. É esse "eu profundo" que manda a mente voltar a se concentrar na respiração. É aquele que diz: "Quem manda aqui sou eu, volte e conte a respiração".
Nesse momento, você vê o Papa.
Nesse momento, você percebe que tem uma coisa separada da mente que controla a mente agitada. E só ter consciência disso já é uma delícia. Cara, minha mente é minha escrava particular! Isso é show demais.
Pera aí. Que história é essa de escrava particular? Nunca, doutor! Você apenas viu a mente funcionando já pensa que pode controlá-la? Pobre coitado! Você está muito longe de controlar a mente.
O próprio Buda, conta a lenda, um dia, meditando disse: "meu eu, agora você não me engana mais". Ele descobriu o "eu profundo" e viu que o "eu" (a mente, o "aquilo que pensa") o estava enganando. Então, Buda começou a despertar. Foi esse o primeiro passo. Dizem que ele sentou numa árvore e ficou lá se exercitando, até aprender a dominar a mente (que ele chamava de "eu"). Só se levantou quando conseguiu dominar perfeitamente o seu "eu". As pessoas chamam esse momento de "iluminação", "DESPERTAR". Mas não importa. O importante é que Buda aprendeu a DOMINAR A MENTE, DESPERTANDO O EU PROFUNDO DO SEU SONO PROFUNDO, e nos deixou o exemplo, mas essa é a tarefa mais difícil para o homem (e para o homem contemporâneo deve ser quase impossível).
Se pudéssemos dominar a mente, poderíamos dominar as doenças (físicas e psíquicas), poderíamos desenvolver capacidades extrassensoriais, poderíamos trabalhar de forma mais produtiva e com excelência. O domínio da mente deveria ser a tarefa do homem futuro, já que a natureza ele já dominou.
Mas ainda somos escravos do capitalismo, que nos obriga a um trabalho alienante e emburrecedor. Precisamos vencer o capitalismo primeiro (ou reformá-lo), de modo a permitir o desenvolvimento do "eu profundo" do homem.
Essa pode ser uma tarefa para milhares de anos.
(*) Para você, burrão, que não sabe: leia o Marinheiro nos Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, lá no arquivopessoa.net.