07/03/2024

O Cristianismo Primitivo e o Comunismo

Tese · publicado em 07/03/2024

Há uma distorção cognitiva na comunidade evangélica, cuja fonte básica é o raciocínio emocional – ou seja, a pessoa pensa não segundo os fatos e o senso comum, mas sob a influência de um componente emocional muito forte. Esses pensamentos dicotômico, que, segundo a psicologia, são padrões sistemáticos de pensamento que desviam da realidade objetiva, com interpretações tendenciosas da informação, tem influenciado a política nacional nos últimos anos. E isso é preocupante porque envolve escolhas objetivas de políticas públicas e projetos de nação.

Eu sei que as pessoas que sofrem com distorção cognitiva não conseguem se curar rapidamente com argumentos lógicos, mas, para as outras pessoas que não sofrem dessa doença, este texto pode ser importante.

Em primeiro lugar, devemos entender:

1 - como os evangélicos entendem a figura de Jesus: (“A interpretação evangélica contemporânea de Jesus revela uma seletividade hermenêutica significativa. Privilegiam-se as epístolas paulinas, que enfatizam a divindade redentora de Cristo, em detrimento dos ensinamentos sociais dos Evangelhos sinóticos. Esta escolha teológica ressalta aspectos transcendentais e individuais da salvação, minimizando as dimensões comunitárias e igualitárias da mensagem cristã original. O Jesus histórico, que pregava despojamento material e justiça social, cede lugar ao Cristo teológico, figura de poder espiritual compatível com estruturas sociais hierárquicas.")

2 - por que demonizam o comunismo: ("A rejeição evangélica ao comunismo fundamenta-se na percepção de incompatibilidade entre materialismo dialético e espiritualidade cristã. A célebre frase de Marx sobre a religião como 'ópio do povo' é interpretada como declaração de guerra à fé, ignorando-se o contexto crítico mais amplo da obra marxista. Esta interpretação simplificada transforma o comunismo em antítese absoluta do cristianismo, impedindo o reconhecimento de convergências históricas entre ambos os movimentos na busca por justiça social.")

e 3 - por que valorizam e defendem a cultura beligerante dos EUA: ("O alinhamento evangélico com a política externa americana deriva de uma teologia dispensacionalista – sistema de interpretação bíblica que divide a história em diferentes "dispensações" ou eras – e que vê nos Estados Unidos e Israel instrumentos divinos para os 'últimos tempos'. Esta visão escatológica justifica posturas militaristas através de interpretações literais do Antigo Testamento, contrastando com a ética pacifista do Novo Testamento. O resultado é uma cristandade que legitima violência estatal em nome de propósitos supostamente divinos.")

Na minha opinião, eles entendem Jesus de forma pontual, escolhendo cuidadosamente as passagens convenientes e ofuscando outras: enfatizam as pregações de Paulo, que se afastou do Cristo original, para divinizá-lo como um deus redentor e, em alguns casos, implacável, assim como enfatizam as palavras abstratas do Velho Testamento e seu deus sanguinário (lembre-se que Saulo era um judeu doutor da Lei; portanto, não conseguiu vencer sua formação religiosa...).

Por outro lado, para eles, o comunismo é um inimigo real, posto que Marx escreveu que a religião é o ópio do povo (a frase completa é a seguinte: "A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração do mundo sem coração e o espírito das condições sem espírito. Ela é o ópio do povo.").

E, por ultimo, e em decorrência mesmo do esquecimento da brandura de Cristo (e talvez para se defender do demônio comunista), apoiam o Estado guerreiro dos EUA e sua sombra armada e financeira, Israel, obtendo argumentos, preferencialmente, no Velho Testamento, cuja coincidência com a Torá judaica é evidente.

Aliás, só fazendo um parêntese: eu fiz um caminho inverso. Meu distanciamento das religiões católicas se deu exatamente por não concordar com o deus assassino dos judeus. Preferi a brandura do Cristo, embora seus ensinamentos tenham sido muito adulterados nas escrituras (pelos copistas analfabetos dos mosteiros primitivos e pelos interesses das facções religiosas).

Pois bem, vamos lembrar que, no tempo de Jesus, havia um movimento revolucionário chamado de Zelotes, que defendia enfrentar com armas o império romano (algo como Cuba enfrentar os EUA). Nesse movimento, havia muitos messias (já que o conceito de Messias dava status de guerreiro invencível e protegido por Javé). Esses revolucionários foram educados ouvindo as histórias do guerreiro Davi e, por isso, eram beligerantes. Jesus parte para um caminho oposto: prega a bondade, o amor ao próximo, o perdão, a não resistência ao mal, a não violência... (deve ser por isso que foi rejeitado pelos maiorais do templo e condenado à danação).

Só para não esquecer, na parábola do bom samaritano, Jesus vai de encontro ao preconceito social, ao afirmar que aquele que verdadeiramente amou ao próximo foi o samaritano (pertencente a uma facção adversária dos judeus). Assim, também não condenou a mulher chamada de adúltera. Também se opôs à usura e à avareza, rogando a todos despojarem-se dos bens materiais para segui-lo, posto que, pelo egoísmo e individualidade, era difícil a um rico entrar no reino dos céus, que, afinal, está dentro de cada um.

Aqueles que seguiram esses ensinamentos, após a morte de Jesus, formavam uma comunidade de mútua proteção: os bens eram de uso comum, a comida era compartilhada, não havia usura nem egoísmo proprietário. Estavam irmanados no espírito de igualdade e fraternidade. Essa forma de organização religiosa se chama eventualmente de comunismo primitivo.

Até o Concílio de Niceia, no ano de 325 da era comum, quando a Igreja Católica se tornou um "Estado", esses ensinamentos ainda eram muito fortes nas comunidades cristãs. Tanto que importantes Padres da Igreja, como Basílio (Bispo de Cesareia na Capadócia) e João Crisóstomo (Arcebispo de Constantinopla), nessa mesma época, denunciavam a injustiça social. Um teórico importante e tradutor da Vulgata, chamado Jerônimo, depois tornado santo, que morreu em 420 a.c., reconhecendo a tentação da acumulação de riquezas, defendia a necessidade de não se apegar aos bens materiais, priorizando a espiritualidade e o serviço aos necessitados. Parece que esses ensinamentos e esse apelo não foram bem-aceitos e a Igreja Católica se tornou o mais luxuoso e poderoso império da Terra.

O problema do comunismo primitivo, pregado pelos primeiros cristãos, era que eles compreendiam que os "bens" deveriam ser compartilhados, mas não entendiam que esses "bens" eram produzidos em alguma parte. Como não havia ainda o sistema capitalista para tornar isso evidente, esse problema era relativamente simples – bastava compartilhar o que se tem. Com a evolução da sociedade, o aumento populacional e mudança no modo de produção para feudalismo e capitalismo, esse problema se tornou insanável: como entregar minhas propriedades para os pobres? Como dividir o lucro da venda dos bens que produzo, ao explorar os trabalhadores, com eles mesmos?

Por isso que Marx chamou a esse comunismo primitivo de "socialismo utópico", criticando-o pela ingenuidade de não considerar os alicerces econômicos da desigualdade social, que impedia o compartilhamento total dos bens e riquezas. Na análise marxista, a propriedade dos meios de produção de todos os bens era o grande defeito da sociedade e os donos do capital não abririam mão dos seus privilégios sem lutar. A única solução seria armar os operários para tomar o poder. Só quando os trabalhadores estivessem no poder, a distribuição da riqueza seria verdadeira, mas para isso precisaria passar por algumas etapas: luta revolucionária, ditadura do proletariado, socialismo, para, no final, com a completa abolição do Estado, poder-se chegar ao famigerado comunismo.

Essa análise não é tão simples assim e os mecanismos históricos se mostraram altamente complexos: tivemos um golpe na Rússia, que se chama comumente de revolução comunista; tivemos um golpe em Cuba, que se chama comumente de revolução cubana; e tivemos um golpe na China, que se chama comumente de revolução chinesa. De qualquer forma, esses golpes trouxeram a semente do socialismo, com muito derramamento de sangue e muitos problemas econômicos. Só recentemente, a China, aprendendo com os erros do passado, conseguiu criar um sistema misto, chamado de socialismo de mercado, que parece ter dado certo, já que tirou bilhões de pessoas da miséria e cuja política externa é de parceria e não de domínio militar como a dos EUA.

Muito bem, seria bom esclarecer que, ainda que no marxismo exista de fato uma compreensão realística dos mecanismos de dominação das religiões (por subjugar as pessoas na ignorância, hipnotizando-as com regras rígidas de vida, fazendo-as não compreender e aceitar a exploração do trabalho, etc.), há que se compreender que o próprio Marx não colocou o ateísmo como pressuposto da luta política. O que ele disse foi apenas que a religião era um mecanismo de alienação que poderia ser superado, quando os meios de produção se tornassem comuns a todos, permitindo uma sociedade mais justa e igualitária. Além disso, há muitos teóricos (Rosa Luxemburgo e Gramsci, entre outros) que compreenderam que a religiosidade – desde que autêntica, ou seja, vinda do seio do povo – pode ser um aliado importante na luta pela igualdade e libertação. Muitos desses teóricos entendiam a correspondência entre o cristianismo primitivo com o ideal comunista.

Não há como negar que o ideal do Cristo, ao iluminar o mundo da alma, purificando-o das imperfeições do egoísmo e da maldade, corresponde ao ideal do comunismo, que pretende iluminar o mundo real para a construção de uma sociedade sem pobres, sem excluídos, sem diferenças sociais. Enquanto o Cristo ensina pela transcendência religiosa, o ideal comunista ensina que se pode ter um mundo mais justo, feito aqui mesmo na Terra.

Por tudo isso, não entendo essa distorção cognitiva de certos grupos evangélicos (majoritários), já que é muito evidente que a pureza do Cristo é melhor exemplo que os imensos defeitos morais do guerreiro Davi.

Nestes tempos de obscurantismo e fundamentalismo religioso, convém fazer esses esclarecimentos.

Escrito em Tese | Tags: cristianismo comunismo religião