12/01/2025

Nosferatu

Crônica · publicado em 12/01/2025

Quantos filmes de terror você já assistiu? Se não assistiu nenhum, ainda não venceu seus medos. Ainda está inseguro no conforto de uma vida idílica e frágil. Enfrentar os medos é fundamental: fortalece o espírito para futuros embates: tais como lutos e fracassos. A morte de um dos pais ou de um filho, a separação, a perda de um amor, as dificuldades financeiras, tudo isso são possibilidades dolorosas. Afinal, o futuro é imprevisível, mas, ainda assim, é possível estar preparado para as adversidades. Aproveitar-se da ficção cinematográfica para olhar de frente a escuridão da vida pode ser um excelente exercício terapêutico (obviamente, esse viés edificante do gênero terror é parcial e ilustrativo).

Enquanto a categoria mítica dos anjos representa, na cultura ocidental, o claro, o racional e definitivo, a paz e a alegria, a perfeição que se projeta; outra categoria, também mítica, dos demônios, se presentifica no indivíduo defeituoso (seja física, moral e espiritualmente), e traz à luz a escuridão dos instintos mais vergonhosos, revela os conflitos internos e a dor deles decorrentes, indica a imperfeição que se tenta evitar.

Os filmes sobre vampiros materializam a ideia de demônios sexualmente vorazes. Por isso, são tão fascinantes; afinal, sexo é um dos principais motivadores da vida e todos estão a ele vinculados (nem que seja pelo nascimento). Ao longo da história humana, a normatização do instinto reprodutor serviu como forma de organizar as relações interpessoais, preservar a coesão do clã e manter o controle social pelo grupo dominante. Tabus, casamentos e moralidades foram surgindo de formas diferentes em cada época. A repressão, assim como a liberação sexual, depende dos interesses das forças políticas e econômicas de cada momento histórico: no começo da revolução industrial, por exemplo, era preciso preservar a energia do trabalhador para criar mais-valia; atualmente, na era da ociosidade da produção industrial, pela introdução da sofisticação robótica e da inteligência artificial, a energia do trabalhador pode ser liberada livremente, desde que o mantenha na submissão e alienação (essa é a cilada do identitarismo de gênero).

Ainda assim, em todas as épocas, há os que se fartam tão gulosamente do sexo que secavam a fonte e, especialmente nesta sociedade ávida de consumo, são induzidos a insanidade. E há outros, grandemente da classe dominada, tão reprimidos e negados, que são induzidos à avidez da ilusão do prazer sexual e também podem chegar à insanidade.

O vampiro é a metáfora desse limite (em alguns filmes e livros, pela permissividade do excesso de sua classe superior; em outros, pelo isolamento e exclusão a que foram relegados). O artista, seja escritor ou cineasta, se apropria do mito, segundo sua idiossincrasia, para falar dessa ganância do desejo incontrolável.

Ainda que, como se verá, o tema seja vetusto, na literatura, há alguns marcos importantes: em 1819, apareceu “O Vampiro”, um conto que Lord Byron não teve coragem de assinar (provavelmente por ser uma auto-referência) e atribuiu a autoria ao namorado John William Polidori. Em 1839, um primo distante de Tolstoi, chamado Aleksei, escreveu "La Famille du Vourdalak - Fragment inedit des Memoires d’un inconnu". Em 1849, Alexandre Dumas escreveu o conto “A Dama Pálida", também traduzido como "A bela vampirizada e O Vampiro Cárpatoé”. Em 1872, o irlandês Joseph Sheridan Le Fanu escreveu “Carmilla – A vampira de Karnstein”, um adorável e ousado romance sobre uma lésbica devoradora. Provavelmente este livro inspirou Bram Stoker a escrever em 1897, “Drácula", o livro que se tornou um clássico e marco na literatura de terror.

No cinema, em 1922, Friedrich Wilhelm Murnau, dirigiu “Nosferatu: A Symphony of Horror", iniciando a saga do personagem no cinema e servindo de inspiração para todos os filmes posteriores. Embora sem recursos tecnológicos sofisticados, Murnau criou efeitos que seriam repetidos exaustivamente nos filmes seguintes (a sombra das garras do vampiro aproximando-se da vítima, antes do corpo que a projeta; ou a sombra subindo a escada sem o corpo que a projeta…)

O tema do desejo sexual incontrolável e os dilemas morais de sua solução violenta, simbolizados na figura do vampiro, são tão impactantes que o cinema sempre volta ao tema. Werner Herzog dirigiu em 1979 “Nosferatu: O Vampiro da Noite” ( estrelado pelo cara que comeu Nastassja Kinski), na mesma linha de Murnau, porém sem o sombrio do expressionismo alemão, mas enfatizando a claridade da crítica social (a cena na qual a burguesia devora um banquete em meio ao caos e aos ratos se tornou icônica).

Francis Ford Coppola dirigiu em 1992 o seu belo “Drácula de Bram Stoker". O curioso é que Coppola, embora se mantenha fiel à trama original, faz uma reinterpretação romântica que não existia no livro de 1897 (provavelmente por pragmatismo mercadológico). Cabe lembrar também a influência de Murnau e as inovações geniais do filme - velas que derretem para cima, fumaça personificando figuras, a mão e braço do vampiro percorrendo a parede, enquanto o corpo ainda não entrou no quarto…

E quando Hollywood entra na parada, a coisa não tem mais fim. Aparecem filmes como “Entrevista com o vampiro” (1994), estrelado pelo bonitinho Brad Pitt, até a saga adolescente “Crepúsculo” (a série de filmes de 2008 a 2012 arrecadou mais de US$ 3,3 bilhões em todo o mundo ).

No ano passado, em 2024, Roberto Eggers, que já havia dirigido dois excelentes filmes de terror - A Bruxa (2015), O Farol (2019) - partiu para sua aventura mais óbvia e ousada: dirigir Nosferatu e apresentar sua própria leitura do livro original de Bram Stoker e prestar uma homenagem a Murnau. Mas para chegar a esse filme é preciso, antes, entender como ele vai recuperar o conceito de “bruxa”, para o qual faz seu primeiro estudo sobre o universo feminino.

Aliás, é importante registrar (e disso se aprende com a antropologia e os assistentes de inteligência artificial integrados aos navegadores), que havia sistemas matriarcais ou matrilineares nas sociedades primitivas, onde a linhagem e a herança eram determinadas pela linha materna e não havia distinções hierárquicas entre homens e mulheres. Nas palavras precisas da professora Regina Helena Urias Cabreira: “Não havendo relações baseadas no poder, os indivíduos relacionavam-se com o princípio do coletivo, do trabalho e vida em comunidade onde não havia espaço para guerras, ameaças e destruições de seus semelhantes. A vida era totalmente regida pela relação entre o indivíduo e a natureza. As mulheres, por seus ciclos menstruais e de fertilidade e gestação, eram diretamente relacionadas com os ciclos da natureza. A própria terra era considerada como a “grande mãe,” aquela que nutria e dava sustento àqueles que dela dependiam, daí a importância atribuída ao aspecto “feminino,” tanto do ser humano quanto da terra que habitava. O indivíduo era totalmente absorvido e integrado à natureza, aos seus ciclos de vida e morte, e aos cuidados ao tratar com a terra, pois dela advinha sua existência e continuidade” (é só procurar a tese de doutorado da professora Regina no google).

Esse tipo de sociedade foi destruído pela predominância do predador masculino, que recorria ao saque como forma de sobrevivência. Foi assim que se destruiu a ideia da Deusa-Mãe para fazer surgir o conceito de Heroi. As mulheres foram demonizadas a partir de então. Surgem a lenda babilônica de Marduk e Tiamat; as lendas gregas de Zeus e Tifon; a lenda semita de Lilith; a lenda grega da Medusa, uma das três Górgonas, e a lenda da arquifeiticeira Hécate, transformada pelos cristãos em a temível rainha do baixo-mundo. São figuras femininas, algumas animalizadas, fazendo sobrepor o lado sombrio e vingativo da divindade feminina.

Agora, imagine como essa imagem negativa chega a uma Idade Média dominada por superstições de fundamentalismos: a mulher passa a ser a preferida de Satã e o conceito de Bruxa se consolida. Teve até um doidinho chamado Heinrich Santiago Kraemer (só podia ser padre!) que escreveu Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras) com a intenção explícita de mandar pra fogueira as tataravós dos comunistas. Olha como ele pensava: “A chave para sua perversidade residia, sobretudo, em seus apetites carnais, que eram muito maiores que os dos homens. As mulheres eram, pois, mentalmente fracas e de comportamento instável, criaturas imperfeitas por natureza, de quem só se poderia esperar o mal e a depravação”.

É esse modelo de mulher que Roberto Eggers instala no seu filme A Bruxa de 2015: uma criança sexualmente perigosa que precisa ser contida. A menarca é o limite para o casamento - talvez como forma de conter o orgasmo. A opressão e repressão presente na moralidade religiosa é a última cadeia asfixiante para a Deusa-Mãe, há muito esquecida. A cena final do êxtase coletivo das bruxas talvez represente um apelo a resistência e insubmissão.

O outro filme, O Farol de 2019, exigiria um estudo mais profundo, por misturar viadagem a drogas psicoativas…

O importante é que Eggers se aproveita dos recursos tecnológicos da cinematografia - indisponíveis à época de Murnau - e se apropria com competência de muitos elementos dos filmes anteriores, para produzir um filme cuja fotografia é de uma beleza plástica impressionante (a sombra do vampiro impressa na cortina esvoaçante da janela é uma solução maravilhosa). Aliás, a sombra se torna, no filme, um personagem próprio, uma dimensão fundamental da trama. Ela está antes de quem a emite. Enquanto, diuturnamente, se investiga a “sombra” do homem projetada no mundo, no filme ocorre o contrário: em alguns planos, se procura o “homem”, além de sua profundidade já revelada na sombra. Seus filmes são indispensáveis para o amante do cinema, ainda que não goste do gênero terror.

Um outro aspecto importante é que o diretor aprendeu em A Bruxa a olhar o feminino, reprimido e controlado. Agora, em Nosferatu, esse olhar se torna mais complexo: a personagem invoca, no despertar da sexualidade, o seu demônio e nunca mais o esquecerá.

Nesse sentido, ao chegar na maturidade, o casamento se torna um tormento óbvio, que não corresponde à intensidade idealizada anteriormente. Daí todo o conflito. O marido tenta trazer esse demônio e o que ele representa de força sensual, mas não consegue mantê-lo (o homem é sempre fraco e preguiçoso para a satisfação feminina e, por isso, sempre a oprime: é mais fácil conter que contentar).

É assim que a personagem vai fazer a escolha por seu demônio no final do filme (ao contrário da leitura óbvia do sacrifício para a salvação das espécies, ela escolheu, na verdade, viver, com determinação, ou morrer, no mundo próprio do seu desejo).

Paralelo a isso , há a acusação, sempre rancorosa do homem, fraco e medroso, de que o orgasmo feminino é a origem de todo mal: no filme metaforicamente apresentado pela peste. Esse homem, fraco e medroso, rende-se à superstição, à metafísica (à psicanálise, caso se opte pela linguagem da psicologia ), ao controle aversivo das leis, à idiotia da fé e à brutalidade da morte.

Os filmes e livros que fazem a leitura desavergonhada e corajosa do feminino são os mais fascinantes (e viva Ana Karenina!). Hoje, no início da idade das trevas digital, é urgente voltar ao assunto - mesmo sob o risco do olhar vesgo do identitarismo.

Mas porque um filme tão impactante não é uma obra de arte?

Talvez porque na arte a perfeição é premissa indispensável. A obra de arte tenta ao máximo evitar as imperfeições e o Nosferatu de Eggers não é perfeito: cede ao nojo desnecessário; não conseguiu aprofundar o medo (estava ali, tão evidente, no castelo sombrio e o diretor prefere lobos sanguinários, enfatizando a ação violenta; estava ali, tão evidente, no Deméter, no qual a perseguição silenciosa e mortal seria mais amedrontadora; estava no quarto das meninas e o diretor preferiu, pudicamente, que fossem apenas devoradas…).

E aquele bigodão de um Leminski lenhador não ajuda muito também.

Mas há um achado assombroso: a voz soturna e gutural, com o arfar do asmático (afinal o vampiro é um morto e respirar é dificultoso). Além disso, consegue fazer com que essa voz espectral não caia no ridículo, dando-lhe poucas falas e muita severidade e raiva.

Outro aspecto importante: a mudança do sugar, que se desloca do pescoço para o peito, também é uma ótima escolha; afinal o plexo solar está sendo devorado e subir sobre a vítima evidencia a saciedade sexual que norteia a temática do filme.

Bem, e os Súcubus e Íncubos, dos quais o vampiro é a expressão mais evidente?

Segundo os assistentes de inteligência artificial integrados aos navegadores e especialmente a insone Samantha da OpenAI e, portanto, carente de confirmação rigorosa, a origem dos saqueadores de energia vital pode ser rastreada até a antiga Mesopotâmia, Suméria, Babilônica e a Assíria.

Cerca de 2.000 anos antes da era comum (aproximadamente entre os séculos 25 a 4 aC) aparece o mito de Lilu (ou Lilitu ou Hlilu ou Lili ), na literatura acadiana e suméria, representando o demônio noturno que atormentava os homens, geralmente associado ao desejo sexual e ao sono, que era, a princípio, associado à noite, ao vento e a fertilidade, e se converteu no espírito que sugava a energia do homem e atormentava mulheres grávidas e matava crianças. O conceito babilônico de Lilu pode estar relacionado com o posterior conceito de Lilith entre os judeus.

Os primitivos temiam os fenômenos naturais, naturalmente incontroláveis, a morte prematura e sem explicação e também a independência da mulher, já agora subjugada ao império violento dos guerreiros saqueadores.

Com certeza esse mito se difundiu por toda a região alcançando, primeiro os gregos, onde passou a se chamar Empusa, um dos espectros de Hécate (uma Titânida, antes cultuada como protetora, auxiliadora dos partos e protetora das colheitas fartas - esta última característica veio provavelmente por sua associação com Perséfone, para quem ilumina os caminhos na sua jornada anual ao Tártaro, para trepar com Hades - depois passou a ser vinculada com encruzilhadas, magia, bruxaria, conhecimento sobre ervas e plantas venenosas, necromancia, abertura de caminhos, para, finalmente, sob forte influência do cristianismo, se converter, de uma figura que concede bênçãos e protege seus devotos, àquela que amaldiçoa e fere a humanidade). Daí dizer-se que as Empusas sugavam a energia dos homens, chegando a matá-los .

Há também as Lâmias, certos tipos de monstros, bruxas ou espíritos femininos, que atacavam jovens ou viajantes e lhes sugava o sangue. Na mitologia grega, Lâmia era uma bela rainha da Líbia (segundo a lenda, de uma comovente história trágica) que se tornou um demônio devorador de crianças após sofrer a ira da ciumenta Hera - provavelmente, esse é o modelo para as Lâmias e, posteriormente, para os Súcubus na Idade Média.

De suas peregrinações na escravidão da Babilônia, sob a influência da cultura local, os judeus trouxeram a figura de Lilith, surgida das tradições orais, particularmente do alfabeto de Ben Sira. Esse personagem mitológico era descrito como a primeira esposa de Adão, que, ao se recusar a ser submissa, por ter sido criada do mesmo material de Adão e não de sua costela, se transforma em um espírito demoníaco associado ao desejo sexual e à sedução, bem como à morte de crianças recém-nascidas.

Entre os católicos medievais, fortemente influenciado pelas narrativas judaicas, se desenvolveu a lenda dos Súcubus, do latim succubus e do antigo latim succuba - prostituta, significando “deitar-se por baixo” (para se diferenciar da versão masculina dos Íncubos - “deitar por cima”, dos quais os vampiros são a representação moderna). Eles simbolizavam demônios, igualmente sedutores, que, durante o sono, devoravam a energia vital dos homens.

Desde o “proto-mito” sumério da Lilitu, cujo nome está vinculado à raiz semítica l-y-l, que significa "noite", representando, nos povos primitivos, o medo da escuridão, do desconhecido, dos ataques de animais e inimigos, convertido em espírito maligno (feminino, não por acaso) decorrente desse medo, até os Íncubos e Súcubos dos onanistas monges medievais, passando pela Lilith dos crédulos judeus, com suas narrativas orais de tradição, há uma evidente linha de interpretação e reinterpretação do mito ao longo da história e da cultura dos diversos povos. Pode-se atribuir ao medo a unidade fundamental: seja dos ignorantes e bárbaros pré-históricos aos, não menos bárbaros e ignorantes, medievais. O vampiro é apenas uma atualização desse medo. Agora, com a visualização espetacular do cinema. Mas é o mesmo medo.

Nessa unidade, subjacente ao medo do desconhecido e da escuridão, há, claramente, o temor do universo feminino. Por óbvio, os homens, fracos e preguiçosos, escolheram a solução fácil de demonizar a mulher, preocupados com a possibilidade de o controle da ordem social ser subjugada pela insubmissão do orgasmo.

Enquanto ainda se vive uma sociedade claramente patriarcal, esse assunto deve ser revisitado. Lembre-se: Biden aprovou, antes de passar a faixa presidencial a Trump, mais 8 bilhões de dólares para os sionistas matarem palestinos em Gaza, como forma de manter viva a indústria da guerra, dentro do processo de construção do mundo multipolar. Afinal, as mulheres não têm poder político, nem econômico e o mundo é feito de ações concretas e reais (por exemplo, robôs de day trade e drones assassinos) e não conversa fiada de botequim e, tampouco, de tese de pós-doutorado. Donde se conclui que a humanidade não evoluiu muito desde a imaginação assustada dos povos primitivos.

A novidade do filme de Robert Eggers, ressalvada a concessão ao gosto duvidoso do terror adolescente da indústria cinematográfica de Hollywood, é ter recuperado e centralizado o universo feminino dentro da tradição dos Súcubus e Íncubos (não seria pertinente suspeitar que, diante de toda a tradição de um espírito maligno feminino, a masculinização do vampiro pela literatura seria uma forma de garantir sucesso editorial?).

O deslocamento do centro da narrativa para a personagem feminina é fundamental para entender o Nosferatu de Eggers. A cena quase insignificante da conjuração do demônio no começo do filme é peça fundamental dessa interpretação. As identitaristas podem gostar dessa leitura. Que gostem, desde que leiam Marx.

Escrito em Crônica | Tags: cinema terror vampiros feminino Robert Eggers mitologia