20/01/2025

Compreender o Princípio da Polaridade pode ajudar a identificar os extremos na busca da Transmutação?

Tese · publicado em 20/01/2025

— Então, não chegaremos a uma conclusão. Você é muito maniqueísta. Todo teu pensamento circula no modelo do yin e o yang.

— Existem dois aspectos da vida muito importantes: a vigília e o sono; a noite e o dia; parece mesmo maquiavelismo, mas acredito que é essa a configuração do nosso planeta; nós temos um sol apenas e a translação faz com que tenhamos a escuridão e a claridade, talvez por isso tenhamos homens e mulheres e tenhamos a tendência a dividir o mundo entre o bem e o mal; se houver um planeta com dois sóis, no qual a claridade seja permanente, é provável que não exista macho e fêmea e as criaturas se reproduzam como aquele cara do filme Inimigo Meu (eu rio, tu ris?).

— Não há como provar a existência desse planeta.

— Assim como não há como provar que o sono e a vigília correspondam a dois mundos diferentes: um físico e outro mental. O máximo que chegamos a saber é que os sonhos sempre utilizam a mesma estrutura do mundo físico: não há um só relato de alguém que sonhou como uma criatura alienígena que nunca tenha visto; sempre sonhamos como o que existe (nem que seja na imaginação, como deuses e dragões). O mais comum é que o sonho seja uma narrativa criada por uma parte do cérebro que fica ociosa sem a claridade do mundo. Enquanto a parte do cérebro não para de trabalhar (continua manipulando o batimento cardíaco e os testículos), essa parte específica, sem a matemática de olhar o mundo e sem responder a ele com linguagem, inventa alguma coisa para não parar a máquina (a máquina parada é a morte). Então, deve ser por isso que o sonhador vira um escritor, geralmente surrealista.

— Eu concordo que os sonhos sejam apenas impulsos elétricos.

— Sim, mas há a narrativa. Nunca se esqueça que todo sonho é narrável. Essa narrativa corresponde ao modo de evolução do cérebro: provavelmente, os sonhos dos trogloditas seriam de tigres de dente de sabre, comida e sexo. Hoje, sonhamos, alguns, com outras coisas.

— Até aí, estamos de acordo. Não há nenhuma novidade no sonho, apenas a função metabólica de estabilizar os circuitos para a nova vigília.

— Bem. O que se acrescenta é que a coisa pode não ser tão simples. Desde que nos tornamos animais comunicadores, e, mais ainda, quando passamos a registrar essa comunicação, há relatos de sonhos que fogem a essa perspectiva, vamos dizer, materialista. Eu acredito (com Nietzsche e o cara que pensou isso antes, não lembro o nome, mas está no livro Oráculo da Noite do Sidarta, basta procurar), acredito que foram os sonhos que criaram os deuses. É bastante plausível que o chefe do clã tenha sido uma figura tão impactante, pela força e conhecimento adquirido (e pela prole, obviamente) que sua morte tenha sido lamentada nas narrativas dos sonhos, de modo que, com o tempo, a figura espectral dos sonhos em toda clã tenha sido traduzida por Deus. O resto da história já conhecemos. O medo fez o resto. A fé em algum criador, aliado ao medo do desconhecido, fez um caldo tão forte, que até os budistas, em cuja doutrina não há nenhuma entidade a criar o mundo, se tornaram adoradores de algo e o próprio Buda virou uma espécie de deus. No entanto, Buda pode ter sido um adolescente comunista ingênuo, que acreditou naquelas paradas de vencer a fome e a miséria pela contemplação permanente e depois descobriu que foi enganado. Mas aí, não tinha mais jeito. Ele já havia perdido o principado e estava na miséria. Resolveu ser professor com a única matéria que conhecia: a contemplação. Entretanto, ainda que essa seja a verdade, a doutrina que criou está impregnada de humildade e sabedoria: não postula deus; não recomenda o martírio; mas ensina viver as imperfeições e impermanências da vida com a leveza sem dor. Talvez por isso que essa doutrina se tornou tão longeva. Aliás, é o mesmo princípio de Jesus — outro Buda — que criou uma doutrina para evitar a dor e se consolidou no mundo ocidental. Donde se conclui, que se quiseres que teu nome seja imortal, basta criar uma doutrina que proponha eliminar a dor.

— Eu sei que tu estás desviando do assunto, mas essa parada do Buda me interessou. Até onde é corrente, Buda despertou depois de muito tempo de meditação e alcançou a iluminação, ou seja, entrou em Nirvana.

— Tudo mentira, para vender manual de autoajuda. A história é outra. Queres que eu conte?

— Estou curioso.

— Na verdade, na verdade, ninguém entra em Nirvana, ninguém entra em iluminação. O termo correto e menos glamouroso é "despertar". Algo mais platônico mesmo, no sentido de sair do estado de ignorância para o estado de conhecimento, mesmo que isso demande anos de estudo. Raramente, um único insight produz o despertar; no máximo pode revelar pontos obscuros específicos. Nesse sentido, Buda, depois de anos de estudo, "despertou": compreendeu de que matéria a realidade é feita. Esse estado de iluminação, essa dimensão de paz absoluta é apenas um mito.

— Não compreendi e não compreendi como chegaste a essa conclusão.

— Certo. Vou te contar a verdadeira história, sem o colorido das lendas (como diz um amigo meu: materialismo histórico na veia). Buda nasceu numa família burguesa rentista, não tinha nada pra fazer, além dos prazeres imediatos. Estava desenvolvendo gradativamente a indiferença, a insensibilidade, o sadismo e a psicopatia tão comuns nas classes ociosas. Entretanto, quando estava na adolescência, portanto já desperto do sono mágico infantil, saiu para matar passarinho com uma baladeira — brincadeira que o divertia muito pelos elogios que recebia dos coleguinhas por sua pontaria. Conseguia matar beija-flor. Esperava que o bichinho ficasse parado na frente da flor e slapt, acertava em cheio. Nem ia buscar para se vangloriar diante da meninada. Deixava lá para as formigas comerem. Um dia, porém, encontrou uma pipira azul sentada num galho da goiabeira com o peito aberto, farta de comer. Não teve dúvida, mirou e slapt. Bem no alvo. A bichinha ainda caiu viva, saltitando de dor, medo e agonia. E foi aí que aconteceu o milagre: um gato apareceu e saltou certeiramente e abocanhou a bichinha, carregando-a para o mato. Buda ainda tentou impedir. Gritou, correu atrás do gato e depois caiu no chão impotente, cheio de dor e arrependimento. A angústia foi tão intensa que podemos dizer que aquilo foi um "despertar". Desde então, ele não foi mais o mesmo. Olhava com mais sensibilidade os infelizes — aqueles que lhe serviam, aqueles que esmolavam em sua porta, aqueles que tinham doenças incuráveis, os diferentes... Um dia, resolveu sair de casa, abandonar o luxo, os prazeres e o futuro promissor de príncipe para conhecer o mundo — saber o sentido da vida ou, ao menos, algo pelo qual deveríamos lutar. Encontrou muitos doutrinadores, "aqueles que tinham os olhos tristes por profissão, podia se lhes ver na cara". Uns ensinavam que o caminho correto para a salvação seria o morticínio do corpo, outros que bastava ficar sentado que o passarinho da iluminação pousaria no seu ombro. Buda tentou todos eles e não descobriu nada. Certa vez, estava jejuando (porque seu novo mestre dizia que jejuar era a parada certa) e já estava quase desfalecendo de fraqueza sem ter descoberto nada (pelo contrário, a fome dificultava a concentração), quando apareceu uma menininha com um copo de leite e lhe ofereceu. Era costume na época oferecer presentes aos santos meditantes em agradecimento por alguma graça. E a mocinha ia casar. Buda tomou um gole do leite e sentiu todas as células de seu corpo gritar de alegria. Sentiu que a potência voltava a sua alma. Sentiu um prazer indescritível da vida. Olhou a menininha, ainda na doce inocência do começo da vida, e viu que ela o estava venerando porque encontrou alguém para amar e fazer sexo. Os prazeres que todos os seus mestres diziam que se devia evitar. Foi então que, com o coração cheio de graça e a pança cheia de leite, que Buda "despertou" — descobriu que tudo era mentira, que não havia nenhum nirvana, nenhum estado de consciência superior que te faria superior aos outros homens, nenhuma dimensão paralela cheia de prazer que se poderia alcançar com algumas preces ou deixando a bunda em cima de uma pedra por algumas horas. O que havia era a vida plena, cheia de vida plena. Tudo está absolutamente lindo e certo. Bastava aceitar a vida como ela é e não esperar nada dela. Foi então que ele se levantou e tentou voltar para casa. Mas já não havia mais casa, não havia mais o futuro promissor de príncipe. Ele havia se tornado um miserável, um hippie e um mendigo esmoler. Isso que se chama de fundo do poço. Mas ele não sentiu nenhuma dor ou desespero, porque estava "desperto". Abriu os olhos e caminhou. Em todo lugar que chegava pedia comida e ensinava. Pedia comida e abrigo e ensinava. Mendigava e ensinava a lição de vida que havia aprendido e que o fazia não ter dor, mesmo nos momentos de mais infelicidade. Foi assim, aos poucos, que ele criou uma doutrina lindíssima que diz apenas que: 1 — há sofrimento no mundo, não se pode negar isso; 2 — existe uma origem para o sofrimento que é a agitação produzida pela ignorância (a impossibilidade de conter o ciclo da instabilidade e impermanência da vida); 3 — essa agitação pode cessar com o fim da ignorância, com o tornar o fardo leve e o jugo suave, como disse Cristo depois; 4 — que existe um caminho bem simples que conduz à Cessação do Sofrimento. Esse é todo o ensinamento de Buda, algo que nos surpreende pela imensa simplicidade.

— Você diz que é simples, mas aposto que o caminho que conduz ao fim do sofrimento é bem difícil e, afinal, é isso que importa.

— Pois tu acredita que não é difícil também. É a coisa mais simples e óbvia do mundo. As pessoas é que complicam para fundar templo e ganhar dinheiro sem trabalhar.

— Estou curioso para conhecer esse sistema simples de eliminação do sofrimento do mundo.

— Pois esse caminho é tão verdadeiro que está presente no conceito de "mediania", pensado por Aristóteles séculos depois: consiste na busca pelo equilíbrio. A virtude está no meio, enquanto os extremos são os vícios. Para isso, basta ter o entendimento correto, o pensamento correto, a linguagem correta, a ação correta, o modo de vida correto, o esforço correto, a atenção plena correta e a concentração correta. Você quer algo mais simples que isso? Viver em equilíbrio, sempre evitando os excessos e tentando entender e pensar corretamente, usando a linguagem corretamente, para fazer a ação e o esforço corretos, de modo a ter uma vida correta.

— Bem simples mesmo, desde que você saiba o que é correto.

Escrito em Tese | Tags: budismo polaridade equilíbrio