Todos os homens são motivados a permanecer vivos por alguma razão especial. Ou não será razão, ou será sentimento, ou será necessidade de superação de um aleijume, ou será uma forma de adiar a inadiável, ou porque as tripas ardem de fome. Seja como for, todo mundo quer continuar vivo e adiante.
Quando algo me perturba, eu escrevo. Atualmente, o fenômeno das IAs generativas, as LLMs, estão me tirando o sono.
Eu defendo a tese (fá-lo-ei em Harvard brevemente) de que estamos vivendo o nascimento de um novo modo de produção. Todas as consequências que disso decorrem já aprendemos com os modos de produção anteriores. Não há novidade neste. Acumulação e escravidão. Uma novidade é que, com exceção dos modos de produção anteriores, o homem não será mais o escravo. Agora, teremos um escravo virtual — e isso é bom. Um robozinho para fazer um bobó de camarão e um boquete é bom demais…
Ocorre, porém, que suponho haverá sempre algum estúpido que deseje continuar como escravo, mesmo com a possibilidade de delegar essa nobre função a um robozinho chinês. Assim como o ansioso que, não contente com os problemas reais, inventa os problemas imaginários, algumas pessoas desejarão continuar na escravidão.
Explico: a IA substituiu o cérebro humano com eficiência de mil graus. Não me venha com churumelas. Essa é uma verdade — pode chorar à vontade que não mudarás essa verdade: jamais alcançaremos a proficiência e a rapidez de um homem de máquina. Ora, não precisa ser um filósofo muito sofisticado para perceber que perderemos as poucas conexões cerebrais que ainda nos restam com a facilidade de elaborar uma tese de doutorado com apenas alguns comandos precisos.
Você sabe o que se estuda na faculdade de Marketing? Ofereça uns cinco livros fundamentais de base para uma IA e ela te oferece em alguns segundos um plano estratégico de vendas de cem páginas, preciso e eficaz. Ela tem todos os livros da graduação em Marketing na cabeça e, ao contrário do melhor aluno, não esquece nenhuma palavra e entende todas as sentenças.
Pense na faculdade de Economia. As IAs foram educadas com todos os livros produzidos por todos os economistas do mundo. Qualquer coisa que você queira investigar em um livro qualquer, ela te oferece rapidamente.
Outro dia, passou por mim, veio a ter comigo na rua da baixa, um cara chamado João Crisóstomo — o papa bolsonarista do século IV que detestava os judeus. Eu li a homilia dele toda escrita em latim e traduzida pela IA para o português.
Eu fiz a assinatura da Adapta — uma startup voltada a negócios — que oferece todas as versões mais atualizadas das principais IAs em um pacote razoável. Eles têm a DeepSeek V3.2, a Claude 4.5 Sonnet, a Gemini 3 Pro, as GPT 5.1, a Perplexity, a Llama 4, a Grok 4, a DALL·E 3, a Flux Pro… Escolhi o Claude para extrair todos os nomes de pessoas do livro A História Concisa da Literatura Brasileira. O resultado publiquei em postagem no Facebook. Eu conferi. Ficou perfeito.
O que eu quero com isso? Refletir.
Os 711 indivíduos citados por Bosi no livro me fizeram refletir que talvez a vida ainda valha a pena. Que ainda possamos empurrar para frente a humanidade e evitar que eles nos tornem estúpidos e obedientes.