14/09/2025

E lá se vão os contadores (de história) pelo ralo da história

Crônica · publicado em 14/09/2025

Como todos sabem, eu sou escritor, jornalista, poeta, economista, psicólogo, cachaceiro, motoqueiro e, nas horas vagas, auditor de controle externo estadual. Hoje vou contar, mesmo sem comer nenhum capim, um pouco sobre o último aspecto de minhas ocupações diárias.

Eu preciso escrever com raiva (meu capim é a raiva), por isso, preciso falar mal de alguém. Hoje, vou tentar falar mal de todo mundo, afinal, só meu amigo Ninguém lerá o que escreverei.

Vamos começar pelos contadores: vocês sabiam que os profissionais de contabilidade foram extintos há muito tempo, muito antes da Inteligência Artificial? Pois é. Os programadores já os haviam eliminado da fase da terra. Sobraram apenas os cursos de contabilidade nas universidades, porque os professores não podem ser demitidos. Eles ainda criam essa criatura anfíbia que não sabe o que vai fazer da vida: se continuará na Empresa Privada, fazendo lançamento de Dever e Haver, como um robozinho bobo, se migrará para a Ciência da Computação ou se se especializará em criar empresas falsas na Junta Comercial para uma Prefeitura. Aliás, os raros bichos dessa fauna que ainda conseguem sobreviver (e bem!), subsistem de montar prestações de contas falsas, adulterar dados dos lançamentos produzidos pelos zelosos programas contábeis e criar licitações fictícias para enganar professor de direito financeiro da Uema...

Na empresa onde trabalho, um departamento da ONU, absolutamente política, que se enfeita de dados contábeis para parecer elegante, existem muitos contadores, todos refratários a Inteligência Artificial, obviamente; alguns porque precisam manipular os dados; outros porque não têm inteligencia suficiente para avançar para além do débito e crédito. Quando inventaram o barco a vapor, muitos remadores foram demitidos. Salvo por um peido de Trump a detonar alguma ogiva nuclear na malvadona China (coisa que a temorata elite do mundo não permitiria nunca), jamais voltaremos ao barco a vapor. Portanto, os algoritmos que fazem um programa aprender por ele mesmo com os dados que você coloca lá não desaparecerão mais de nossas vidas. Então, conclui-se: vamos usar bem esse novo barco a vapor...

Portanto, ao invés de ficar como um boboca lançando dados de crédito e débito (que o programador do séculos passado já fazia), o departamento da ONU onde trabalho deveria migrar para essa oportunidade. Uma matriz de risco pode ficar mais fácil e mais eficaz com os algoritmos de aprendizado de máquina. Por meio de técnicas como classificação, detecção de anomalias e predição de comportamentos, esses algoritmos auxiliam na identificação de irregularidades, fraudes e padrões de má gestão que poderiam passar despercebidos por métodos tradicionais. Se você der o pedido certo (estruturar o prompt/comando de forma clara, sem ambiguidade; técnica, com detalhes precisos do que deseja; específica, com contexto suficiente, com informações de localização, tema e objetivo, em poucos segundos a IA produz uma matriz de planejamento e um Relatório de Auditoria Operacional.

O departamento da ONU onde trabalho passou a vida inteira fazendo um arremedo de auditoria de conformidade e a auditoria de conformidade desapareceu com os contadores, no século passado. Ninguém mais quer saber se um Balanço Orçamentário está em conformidade com o RREO. Isso é coisa de aluno do segundo grau. Se uma prefeitura não tem SIAFI, manda prender o prefeito por 100 anos. Só os muito tolos ainda estão fazendo capturas de dados.

Então, os que estão servindo de âncora, impedindo que o barco a vapor singre os novos mares, minhas condolências respeitosas, são apenas defuntos postergados.

Isso significa que a profissão de auditor será extinta e com ela todos os contadores e demais profissionais que trabalham na área? Quanta tolice! Só uma cabecinha muito infantil poderá pensar que os contadores foram extintos. Quem foi extinto foi seu Carlinhos, o centrado, correto e dandi contador de meu pai, sempre com aquele caderno de capa dura do livro Diário. Um contador/auditor não lança mais dados no livro Diário. Faz matriz de risco, faz matriz de planejamento, faz gestão estratégica, vai em loco confirmar os dados lançados no SIAFI e saber se uma licitação está em conformidade com o que teorizou o professor da UEMA. Então, trabalho não falta. Pode faltar coragem. E eu sei que velhos gordos e ricos têm pouca testosterona e portanto pouca coragem de trabalhar…

Agora vou te contar um outro segredo.

Todo ano eu faço um relatório sobre as contas do governo do Estado. Facim, facim… basta lançar débito e crédito. Tanto que automatizei numa planilha e basta lançar os novos dados que a Receita Líquida de Impostos e Transferência aparece lá toda bonitona. A Receita Líquida de Impostos e Transferência, vou chamar de RLIT por preguiça, é a receita própria do ente, aquele que ele arrecada sozinho, mas precisa descontar os valores que ele é obrigado a mandar para outros entes. Assim, o Estado arrecada R$ 13.479.348.955,22 (treze bilhões e meio) de ICMS, mas tem que descontar R$ 3.369.837.238,81 (três bilhões) que ele é obrigado a mandar para as prefeituras. Por isso, se chama Líquida.

Agora, o segredo: o Estado do Maranhão é um chupa cabra. Explico. De toda a receita que ele obtém para fazer tudo na vida, em média, 60% vem dos Impostos Próprios. Em 2015, a RLIT correspondia a 62,32% da Receita Bruta do Estado; em 2025, ela corresponde a 63,52% da Receita Bruta. Ou seja, o Estado está refém do contribuinte. Está refém de quem produz riqueza e paga tributo. É um chupa cabra.

E se esses contribuintes não pagarem, por motivos diversos, incluindo problemas econômicos exógenos, eles estão ferrados, vão parar na Dívida Ativa do Estado.

Só para ter uma ideia, no comparativo entre os exercícios de 2023 e 2024, observou-se um crescimento de 62% no valor de débitos inscritos em Dívida Ativa de ICMS, passando de R$ 425.932.317,15 para R$ 690.326.853,12. Paralelamente, houve um aumento substancial nas dispensas de multas e juros associadas a parcelamentos, que saltaram de R$ 37.188.120,91 em 2023 para R$ 122.233.365,76 em 2024, representando uma elevação superior a 228%.

Não sei o que está acontecendo: aumento na inscrição de dívida ativa pode ser um trabalho mais eficiente da mão fiscal do Estado e o aumento nas dispensas e multas pode ser uso político da máquina (ou pura corrupção…).

Este ano, alguém apagou minha análise (esta, acima), do Relatório Final do Estado. Mais um indicador de suspeição do processo de captura dos nobres colegas do egrégio Departamento da Onu...

De qualquer forma, é um escândalo que ninguém se interesse por tornar o Estado menos dependente do dinheiro dos outros. É ótimo que haja recursos das empresas e dos contribuintes individuais para as despesas básicas, mas receber apenas R$ 474.649.260,68 (quatrocentos milhões) de Receita Patrimonial em 2024 é uma vergonha. O Maranhão tem riquezas suficientes para serem exploradas também diretamente pelo Estado, sem ficar dependente da iniciativa privada. Onde está o lucro da CAEMA? Onde está o lucro da EMAP? No bolso de algum espertalhão que cooptou o sistema de controle interno e externo?

Como se pode observar, gentil Ninguém, não precisamos extinguir os contadores, mas sim promover neles — e em nós — aquele banho de moralidade e honestidade que Rui Barbosa tanto exaltava como fundamento da vida pública.

Escrito em Crônica | Tags: contabilidade inteligência artificial trabalho