08/10/2025

Aprender a morrer

Tese · publicado em 08/10/2025

A ótica do mundo material — neste, especialmente consumista e hedonista por excelência, em torno do qual sobe a névoa do AGORA, visível no horizonte de alguns segundos — impõe, ansiosamente, que se aprenda a viver (“é preciso saber viver”) antes de aprender a morrer.

É preciso retirar cada pedra no caminho e não viver na ilusão. Certo. Evitar o que é ruim e buscar o que é bom é uma filosofia tão perfeita que não precisa de explicação. É natural a todas as espécies procurar o “bem” e fugir do “mal”. Disso não há controvérsias. Mas como insistir no que é bom, adulá-lo, bajulá-lo, sem que ele se torne, pelo excesso, enjoativo e até repulsivo? Obesidade, doenças cardíacas, vício em jogos e drogas, tédio, depressão, a morbidade do apego — não seriam consequências nefastas do excesso do “bom”?

Essas consequências não apontam ao fim do novelo — a morte? Não se estaria sendo conduzido a uma espécie de Educação pela Morte, ao exagerarmos no apego ao material, ao gustativo, à agonia da felicidade e ao esquecimento da impermanência?

Alguém já disse que a morte é a possibilidade existencial de não mais ser. Óbvio. Alguém já apalpou o vazio deixado por um parente amado? Pois é. Enquanto esse vazio corresponde ao outro, mesmo que amado, o martelo da morte não bate e não dói. Ele só vai amassar tuas certezas quando bater na tua própria cabeça.

Apenas o indicativo da ausência, presente na nota fúnebre na TV, na presença da ausência repentina de um conhecido ou amigo, já bastaria para acender a luz dessa professora inefável. Não, ninguém presta atenção, até que ocorra consigo mesma. Maus alunos, e embebidos no AGORA inefável, todos teimam em adiar a inadiável e bajular o presente como se ele fosse eterno.

Nem é preciso que se coloque em discussão as duas hipóteses que norteiam o que ocorre depois da visita dessa senhora fatal (e só há duas hipóteses e nenhuma mais — pode ressuscitar Aristóteles que ele não conseguirá negar que só existem duas hipóteses: “ou há ou não há”). Se há, qualquer um vai fantasiar o que quiser, desde viagem com ETs bonitinhos ou cidades aéreas mentais, ou mesmo aquela gaveta genética na qual os crentes vão ficar esperando o Juízo Final. Se não há, babau… Acabou e ao pó todos voltarão. Quem quer fazer a aposta? Qual tu escolhes?

Mas essas hipóteses ensinam pouco; mais parece aquela discussão infindável de saber quem viu o gato preto, escondido no quarto preto e escuro, que não estava lá… Certo, que tem gente que até ouviu o gato miar… outros juram de pés juntos que se trata de um tigre e haja terrorismo psicológico…

Independentemente de quem vai ganhar essa aposta, a certeza da morte é uma certeza inabalável e, ora ou outra, todos terão que enfrentar essa parada. E poderiam deixar por alguns minutos a convicção gostosa da vida imediata para olhar as aulas dessa imortal professora. O que aprenderiam? Difícil dizer. Vai depender de como a consciência individual foi criada, e são as religiões que moldam a visão de mundo sobre esse assunto. É uma pena, porque as religiões não ensinam o mais importante, não ensinam o essencial: A CERTEZA DA TRANSITORIEDADE.

A impermanência do estar aqui tem a força psicológica de mil bombas atômicas. Livrar-se do apego, surfar na maré da vida, como se descesse de esqui no alto dos Alpes, desviando de obstáculos e respirando o ar fresco da manhã. Sem a angústia do ter, sem a ansiedade do mais.

“Quando acordo de manhã, minha verdadeira preocupação é descobrir se estou ou não em estado de graça”. Leonard Cohen

Escrito em Tese | Tags: morte impermanência apego