Eu o viria menino magro e inseguro, taciturno e assustado, utopizando a presença de um Pai.
Eu o veria rapaz pobre e sem cultura, tentando se impor numa sociedade que só respeita os que fingem saber ler.
Eu o veria com todos os hormônios ativos e raras opções de encontro.
Eu o veria sensível, inteligente e sem cultura, apaixonando-se perigosamente do lirismo gótico e perigoso de Augusto dos Anjos:
Adeus, adeus, adeus! E, suspirando,
Saí, deixando morta a minha amada,
Vinha o luar iluminando a estrada
E eu vinha pela estrada soluçando.
Eu o veria embebido e bebido, nos primeiros acessos de angústia e nas primeiras letras.
Eu o veria escarnado pelos saudáveis, os que grassam no erário, e sabem das segundas núpcias.
Eu o veria nas primeiras núpcias, com aquelas lágrimas imensas do primeiro filho.
Eu o veria solidificando o perfil de Bardo, por necessidade de auto-afirmação.
Eu o veria Baldo, cultivando a Barba como a passarinhos.
Eu o veria nas segundas núpcias fazendo os acordos de Fausto.
Eu o veria algo como peça do folclore, apontado pelos turistas.
Mas, principalmente, eu o veria velho, alcançando a graça dos anos e a
dor da decadência e a sabedoria do efêmero e a palavra lisa na língua e
o olhar de quem tudo já viu e os hormônios saciados e a alma de menino
que reencontra, enfim, o Pai prometido.
18/08/2006
Se o Bardo fosse meu pai.
PoesiasEletivas · publicado originalmente em 18/08/2006
09:05 — Escrito em PoesiasEletivas | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Menino Pai Poeta Nauro Machado