Eis a breve história de três Marias e seus destinos e fados, metáfora de milhares de outras, em dores iguais ou semelhantes.
Qual a melhor psicologia para posologia? Na psicanálise,
temos a sofisticação do discurso, as metáforas científicas do Dr. Freud
e de tudo que lhe veio depois: para os orgulhosos do vigor intelectual
ou abundantes de falo, eis o melhor caminho! Por outro lado, nos livros de auto-ajuda,
sem o pedantismo da academia, temos a palavra acessível, muitas vezes
superficial e mercantilista, mas que responde satisfatoriamente em
muitos casos: para os sem vigor intelectual ou falhos de falo, eis um
segundo caminho! Nenhum método trará a cura, apenas
alívio e não se pretende aqui negar validade a nenhuma das duas teorias
(afinal, o autor não é especialista no assunto), mas é oportuno
fazer-lhes as críticas necessárias.
Qual o livro de “psicologia” está em moda: “as mil e uma maneiras de
enlouquecer um homem na cama” ou “as convergências epistemológicas da
desconstrução deleuseana do indivíduo na sociedade”? O mercado livresco
é farto! Vá para a Edusp e para as Edições tais e basta escolher: há
livros da mais absoluta honestidade, de tanta seriedade que chegam ao ridículo,
como no segundo exemplo acima. E há, também, as bobagens venais,
escritas por sujeitos inescrupulosos ou simplesmente ignorantes, que se
aproveitam da imensa quantidade de bibliografia da humanidade e copiam uns conceitos
daqui, outros dali e produzem frankensteins textuais, sem o mínimo
rigor científico, simplesmente para ganhar alguns trocados. E, algumas
vezes, ganham muitos trocados, pois, do outro lado da cerca, há um
bocado de gente, que não sabe o que é rigor científico, mas são capazes
de gastar algum trocado, quando são tocados por um título de livro
esperto.
Essas duas psicologias e suas infinitas
variações, representadas nos dois títulos anedóticos que citei, são
exemplos da falta de responsabilidade do mundo livresco. No primeiro
caso, a psicologia foi construída no botequim, no saite do google e nas
bancas de revistas; no segundo, a psicologia foi parida na
universidade, onde se crê andar descalça uma senhora chamada
cientificidade. Cá entre nós, inquieto leitor, não se deve admirar
nenhuma das duas: uma é esnobe e inútil; a outra é vulgar e inútil.
Para ambas as “psicologias”, convêm se lembre a pergunta fundamental,
sem a qual o tratamento é inválido. A maioria das pessoas prefere
perguntar: “por que estou sofrendo?”, como se não fossem merecedoras de
sofrer e desejassem encontrar uma causa fora de si mesmas. Essa
pergunta emperrará o processo, pois só haverá respostas superficiais e
insatisfatórias. Saber, por exemplo, que a causa da dor das três marias
é a “ausência de pai” não é suficiente para desencadear o processo de alívio do sofrimento.
Outras pessoas preferem perguntar: “como aliviar meu sofrimento”, como
se houvesse disponível uma neosaldina para a alma. Essa pergunta,
embora a mais óbvia, não ajuda muito, pois conduz a milhares de
teorias, das quais significativa parte não passa de desonestidade
intelectual. Mesmo que as três marias descubram, através de uma terapia
de autoconhecimento, a origem do “trauma”, essa descoberta só será útil
quando incluir a decisão de evolução moral do sofredor.
Isso mesmo, a pergunta fundamental é “qual o proveito se pode tirar do sofrimento”,
ou seja, a pessoa deve buscar o superar-se, alcançando a consciência
daquilo que o sofrimento ensina. E o quê cada uma das três marias
poderia fazer para se superar e superar o sofrimento? Simples (ao menos
teoricamente), respirar na consciência dos ensinamentos da dor.
Saber onde tudo começou, ajuda a traçar a origem, mas não é o remédio.
O remédio é a própria dor! Fazendo a pergunta certa, o suplicante não
estará lamentando-se, experimentando terapias estranhas, fazendo sofrer
outras pessoas, ou tentando deslindar o novelo da novela da origem.
Estará ativando um elemento além da resignação e da aceitação. Estará
superando-se, evoluindo, purificando-se.
Esse respirar na consciência dos ensinamentos da dor
(aliás, um título deveras pomposo) nada mais é que uma decisão
personalíssima de chafurdar nos baús de si mesmo, como dizia o
Sócrates. Analisar os dentro e os fora que alimentam a dor. Não é coisa
simples e não é coisa para um ano, mas é um caminho. A primeira Maria,
órfã, foi buscar o vigor nos substitutos, sob as convenções sociais,
mas também poderia aprender o não-egoísmo, a superação da inveja e
encontrar a alegria no amor público. A segunda Maria, órfã, nem mesmo
alcançou o vigor, mas bem que o poderia alimentar dentro de si mesma,
para doá-lo publicamente. A terceira Maria, órfã tardia, teve
obscurecido o vigor pela rejeição, (oh! que imensa dor é isto!), mas,
ainda assim, deveria tentar os laços perenes no amor verdadeiro e... reparti-lo publicamente.

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25/10/2006
As Três Marias
13:40 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 1 | Tags: três marias orion psicanálise auto-ajuda
