25/10/2006

As Três Marias

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Eis a breve história de três Marias e seus destinos e fados, metáfora de milhares de outras, em dores iguais ou semelhantes.
Qual a melhor psicologia para posologia? Na psicanálise, temos a sofisticação do discurso, as metáforas científicas do Dr. Freud e de tudo que lhe veio depois: para os orgulhosos do vigor intelectual ou abundantes de falo, eis o melhor caminho! Por outro lado, nos livros de auto-ajuda, sem o pedantismo da academia, temos a palavra acessível, muitas vezes superficial e mercantilista, mas que responde satisfatoriamente em muitos casos: para os sem vigor intelectual ou falhos de falo, eis um segundo caminho! Nenhum método trará a cura, apenas alívio e não se pretende aqui negar validade a nenhuma das duas teorias (afinal, o autor não é especialista no assunto), mas é oportuno fazer-lhes as críticas necessárias.
Qual o livro de “psicologia” está em moda: “as mil e uma maneiras de enlouquecer um homem na cama” ou “as convergências epistemológicas da desconstrução deleuseana do indivíduo na sociedade”? O mercado livresco é farto! Vá para a Edusp e para as Edições tais e basta escolher: há livros da mais absoluta honestidade, de tanta seriedade que chegam ao ridículo, como no segundo exemplo acima. E há, também, as bobagens venais, escritas por sujeitos inescrupulosos ou simplesmente ignorantes, que se aproveitam da imensa quantidade de bibliografia da humanidade e copiam uns conceitos daqui, outros dali e produzem frankensteins textuais, sem o mínimo rigor científico, simplesmente para ganhar alguns trocados. E, algumas vezes, ganham muitos trocados, pois, do outro lado da cerca, há um bocado de gente, que não sabe o que é rigor científico, mas são capazes de gastar algum trocado, quando são tocados por um título de livro esperto.
Essas duas psicologias e suas infinitas variações, representadas nos dois títulos anedóticos que citei, são exemplos da falta de responsabilidade do mundo livresco. No primeiro caso, a psicologia foi construída no botequim, no saite do google e nas bancas de revistas; no segundo, a psicologia foi parida na universidade, onde se crê andar descalça uma senhora chamada cientificidade. Cá entre nós, inquieto leitor, não se deve admirar nenhuma das duas: uma é esnobe e inútil; a outra é vulgar e inútil.
Para ambas as “psicologias”, convêm se lembre a pergunta fundamental, sem a qual o tratamento é inválido. A maioria das pessoas prefere perguntar: “por que estou sofrendo?”, como se não fossem merecedoras de sofrer e desejassem encontrar uma causa fora de si mesmas. Essa pergunta emperrará o processo, pois só haverá respostas superficiais e insatisfatórias. Saber, por exemplo, que a causa da dor das três marias é a “ausência de pai” não é suficiente para desencadear o processo de alívio do sofrimento.
Outras pessoas preferem perguntar: “como aliviar meu sofrimento”, como se houvesse disponível uma neosaldina para a alma. Essa pergunta, embora a mais óbvia, não ajuda muito, pois conduz a milhares de teorias, das quais significativa parte não passa de desonestidade intelectual. Mesmo que as três marias descubram, através de uma terapia de autoconhecimento, a origem do “trauma”, essa descoberta só será útil quando incluir a decisão de evolução moral do sofredor.
Isso mesmo, a pergunta fundamental é “qual o proveito se pode tirar do sofrimento”, ou seja, a pessoa deve buscar o superar-se, alcançando a consciência daquilo que o sofrimento ensina. E o quê cada uma das três marias poderia fazer para se superar e superar o sofrimento? Simples (ao menos teoricamente), respirar na consciência dos ensinamentos da dor. Saber onde tudo começou, ajuda a traçar a origem, mas não é o remédio. O remédio é a própria dor! Fazendo a pergunta certa, o suplicante não estará lamentando-se, experimentando terapias estranhas, fazendo sofrer outras pessoas, ou tentando deslindar o novelo da novela da origem. Estará ativando um elemento além da resignação e da aceitação. Estará superando-se, evoluindo, purificando-se.
Esse respirar na consciência dos ensinamentos da dor (aliás, um título deveras pomposo) nada mais é que uma decisão personalíssima de chafurdar nos baús de si mesmo, como dizia o Sócrates. Analisar os dentro e os fora que alimentam a dor. Não é coisa simples e não é coisa para um ano, mas é um caminho. A primeira Maria, órfã, foi buscar o vigor nos substitutos, sob as convenções sociais, mas também poderia aprender o não-egoísmo, a superação da inveja e encontrar a alegria no amor público. A segunda Maria, órfã, nem mesmo alcançou o vigor, mas bem que o poderia alimentar dentro de si mesma, para doá-lo publicamente. A terceira Maria, órfã tardia, teve obscurecido o vigor pela rejeição, (oh! que imensa dor é isto!), mas, ainda assim, deveria tentar os laços perenes no amor verdadeiro e... reparti-lo publicamente.

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13:40 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 1 | Tags: três marias orion psicanálise auto-ajuda