Dos rubros flancos do redondo oceano
Com suas asas de luz pendendo a terra
O sol eu vi nascer, jovem formoso
Desordenando pelos ombros de ouro
A perfumada luminosa coma,
Nas faces de um calor que amor acende
Sorriso de Coral deixava errante.
Em torno a mim não tragas os teus raios,
Suspende, sol de fogo! Tu, que outrora
Em cândidas canções eu te saudava
Nesta hora d'esperança, ergue-te e passa
Sem ouvir minha lira. Quando infante
Nos pé do laranjal adormecido,
Orvalhando das flores que choviam
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,
Na terra de meus pais eu despertava,
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,
E o sussurrar da rúbida mangueira –
Eram teus raios que primeiro vinham
Roçar-me as cordas do alaúde brando
Nos meus joelhos tímidos vagindo.
Ouviste, sol, minha'alma tênue d'anos
Toda inocente e tua, como o arroio
Em pedras estendido, em seus soluços
Andando, como o fez a natureza:
De uma luz piedosa me cercavas
Aquecendo-me o peito e a fronte bela.
Inda apareces como antigamente,
Mas o mesmo eu não sou: hoje me encontras
À beira do meu túmulo assentado
Com a maldição nos lábios branquecidos,
Azedo o peito, resfriada cinza
Onde resvalas como em rocha lôbrega:
Escurece essa esfera, os raios quebra,
Apaga-te p'ra mim, que tu me cansas!
A flor que lá no vale levantaste
Subindo o monte já na terra inclina.
Eu vi caindo o sol: como relevos
Dos etéreos salões, nuvens bordaram
As cinzas do horizonte, e nas paredes
Estátuas negras para mim voltadas,
Tristes sombras daqueles que morreram;
logo depois de funerais cobriu-se
Toda a amplidão do céu, que recolheu-me.
As flores da trindade se fecharam,
E já abrem no céu tímidos astros;
Apenas se amostrou marmórea deusa.
Que sossego! Me deito nesta lajem,
Meus ouvidos eu curvo, o pensamento
Penetra a sepultura: o caminhante
Assim vai pernoitar em fora d'horas,
E bate ao pouso, e descansando espera,
Belos túmulos, verdes ciprarisso,
Dai-me um berço e uma sombra. Como invejo
Esta vegetação dos mortos! Rosas
Meu corpo também pode alimentar.
Além, passa o sussurro da cidade,
E nem quero dormir neste retiro
Pelo amor d'ócio: mais feliz o jugo
Quem faz este mistério que me enleva,
Deus somente alumia este caminho.
Sousândrade em Guesa Errante
13/08/2007
Harpa XXXII
PoetasAfins · publicado originalmente em 13/08/2007
22:55 — Escrito em PoetasAfins | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Guesa Errante Sousândrade
