16/08/2007

Os Custos do Fausto 1

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René Magritte_ceci n'est pas une pipe



Falar sobre o “sistema do Fausto” é inútil, porque só o entende quem já vendeu a alma e, portanto, o assunto não interessa a quem já está queimando ou quem se deu bem e está gordamente satisfeito. Como, porém, este blog só trata de inutilidades...
O problema não é tanto o “sistema do Fausto” que já existe há milhares de anos e poderia ser eliminado gradativamente, se fosse conveniente à evolução social, através de ações diretas de desavergonhamento. O problema é que manter o sistema é uma forma de manter o poder e as lutas pelo poder são sempre encarniçadas. Além disso, o sistema está cada vez mais sofisticado: os assassinatos dos rebeldes não ocorrem mais à luz do dia, de forma escandalosa, para difundir o medo, através do terror e impor a submissão aos desprotegidos. Agora, há instituições que velam pelo pagamento da alma e há médicos (geralmente com diplomas escusos), que, comprometidos pela origem escusa da formação, são obrigados (e muitas vezes o fazem com satisfação) a eliminar os rejeitados. Há ainda policiais eunucos (formados numa estranha piedade pelas mulheres) que precisam descarregar a impotência e a arma a troco de qualquer migalha.
Outra questão é a longevidade do sistema. Só porque ele é velho como Abraão, não significa que esteja correto, ou seja o mais indicado para os tempos modernos. Woody Allen, se o soubesse, criaria bons filmes para indicar sua superação (e, no entanto, fez um monte de bobagem risível). Há erros milenares, como a perda do Paraíso, até hoje lamentada, hipocritamente, pelos religiosos de todos os matizes.
Até outro dia, no oeste americano, se andava nas ruas armado até os dentes. Ali, no sertão, o cangaço achava normal degolar os marcados para morrer. A brutalidade não é diferente hoje. Ela é anestesiada por algum argumento silogístico ou com o emplasto monetário, para que os externos entendam que o assassínio foi justo. A brutalidade tem outras formas (o terrorismo, o extermínio, mas também as eleições compradas, as manipulações da justiça, as emendas ao orçamento federal...). A civilização já está suficientemente sensível, no entanto, para rejeitar os assassinatos brutais e muito explícitos. Por isso, os “conselheiros” precisam de médicos mal formados e acidentes de trânsitos e suicídios...
É preciso empurrar a civilização para frente: não apenas com a diminuição da miséria e da ignorância, que sempre fertilizam a barbárie, mas com ações mais sutis, como a de tornar escandalosa a corrupção, que sempre alimentou o Fausto ou dificultar a necessidade de abortos...
Isso, porém, não é tarefa para um dia.
Por enquanto, cumpre saber quem ganha com a CPMF.


(canto de cisne para Irmã Nóia)

08:55 — Escrito em Tese | Comentários registrados no original: 0 | Tags: Vender a Alma Sistema Fausto