Os que nasceram nas grandes metrópoles, com seus brinquedos eletrônicos e suas esquinas concretas, defenderão as ruas asfaltadas, o clube do fim de semana e a solidão do computador; os que nascem na beira de um rio, porém, queremos fazer ver as vantagens e os privilégios da infância livre, entre águas, peixes e canoas. A cidade, com seu ritmo acelerado, ensina a pressa e a urgência; o rio, por outro lado, nos obriga a paciência e ao tempo certo de cada coisa. Na cidade, os espaços são tomados, cercados, delimitados; no rio, a liberdade se desenha no horizonte, sem muros nem portões. Porém, nem todos reconhecem o valor dessa liberdade. A natureza, muitas vezes, só é valorizada depois de perdida, quando se descobre que a vida entre paredes e concreto tem um custo invisível, mas irremediável.
Até hoje, e lá se vão mais de trinta anos, ainda sonho com o rio Mearim no fundo de meu quintal. Vez por outra, acordo com a doce sensação de um banho quente em suas águas. E quantas vezes sonhei com a casa alagada pela enchente, pescando piaba, sobre um jirau de tábuas!? O menino ainda não sabia reconhecer a responsabilidade dos adultos e o sofrimento dos alagados mais pobres. Só pensava em banhar no meio da rua e pescar...
As enchentes eram espetáculo e diversão. A correnteza trazia surpresas: eu recolhia olho de boi para brincar (e aprendia-lhe o significado oculto: “boiando para germinar”); um dia, vi um boi morto, espantosamente boi e morto, com as pernas alvas a apontar o céu, que nadava ao revés (querendo voar ou já em voo pleno na sua mortice? Quem saberá onde fica o céu dos bois, cuja carne nos faz crescer as unhas dos pés e o egoísmo!?); ia sonolento e inchado, singrando lentamente na correnteza, como se meditasse um enigma; os mururus, por sua vez, iam apressados e seus enigmas eram bem mais reais: ninho de sucuris, dizia meu avô, prudente.
Os adultos temiam o infortúnio e a perda; nós, os meninos, só queríamos aventura e descoberta. O deslumbramento infantil não reconhecia a tragédia dos pobres, que moravam, quase todos, em casas de barro; as plantações perdidas, as criações mortas, a fome, as doenças… Só agora na consciência do adulto a inocência da festa se converte em responsabilidade e empatia.
Outro dia mesmo, sonhei um sonho surrealista. Parecia que o rio se transformava numa larga avenida, com carros anfíbios e bicicletas que subiam e desciam nas águas... Mistura de memória e delírio: o sentimento de afeição que se mantinha do locus amoenus da infância, afável no doce conforto e na segurança da família, convertido no terrível embate com a vida real, sem o socorro dos afetos e sem a proteção do lar; como se meu espírito buscasse refúgio para o enfrentamento do real.
Eu nasci na beira do rio, na casa sete, cuja rua leva o nome de um antepassado. Aprendi a nadar com meu avô, Nestor Fernandes, que tinha um método pedagógico um tanto excêntrico: jogava-nos no meio do rio para que perdêssemos o medo da água. É claro que era uma forma dele se divertir também, mas eu retive a lição realística: ou aprende a nadar ou morre afogado! Não havia meio-termo, nem tempo para hesitação. E assim a vida nos ensinava cedo que enfrentar o desconhecido era questão de sobrevivência. Hoje, quando encaro desafios que parecem intransponíveis, lembro-me do impulso, do frio na barriga, das braçadas desajeitadas para vencer a correnteza. Aprender a nadar não era apenas um ofício infantil; era uma iniciação à coragem, à entrega, à confiança no próprio corpo.
A primeira namorada, conheci nos banhos de canoa nas manhãs de domingo. Os meninos seguiam na dança da maré cheia e na batida de maracujá, enquanto as meninas, de biquíni, iam em outras canoas, tomavam banho de sol. Foi um amor sentimental e sincero, como acho que deve ser todo amor, se alguém já o teve (e eu o tive e sou grato pelo privilégio desse doce adoecimento). Foi essa paixão de menino impúbere que provocou minha inclinação poética/romântica e me fez ler toda a obra de José de Alencar...
Pois é, o menino que os outros (mais sábios - aqueles que já haviam sido mordidos pelo lagarto), chamavam de “boboca”, foi um alvo fácil e óbvio de Eros. E ali estava a bifurcação que me conduziu à heterossexualidade (sem a qual eu teria cedido aos encantos de Júnior…). Naqueles dias, o amor parecia coisa simples, tão idílico quanto se poderia esperar de um sonho idílico. Não havia urgência, não havia compromissos, não havia Machado de Assis. O tempo se media pelos ciclos da maré e pelo caminho do sol no céu. Talvez por isso as paixões daquela época ainda vivam na memória, tingidas pelo mesmo dourado dos fins de tarde.
A primeira transa, também, alguns anos adiante, foi com a inspiração do rio. Mas, é claro, não era tão bom como as boas pescarias de surubim! Ah! Nada supera um peixão na linha, brigando desde o meio do rio até a beira! A educação pela paciência e o orgasmo da fisgada: perfeito!
Além disso, as desilusões, os desencantos, as melancolias da juventude eram testemunhadas pelas plácidas águas do entardecer. O dourado nas pequenas ondas, que pareciam dedilhar uma valsa inaudível; o vento triste e morno; os pássaros a buscar, em algaravia, o agasalho das grandes árvores; o amarelo queimado do sol no horizonte se pondo entre as copas das mangueiras e a curva do rio. Eu nunca vi um pôr do sol tão bonito quanto o de Arari, capaz de reunir para mim, a beleza natural e a simpatia da saudade. Eram momentos em que o tempo parava, em que tudo parecia fazer sentido sem necessidade de explicação. O rio era confidente mudo de nossas inquietações, e sua superfície refletia não apenas o céu em despedida, mas também os desejos, as dúvidas, os pequenos dramas de uma vida que ainda se descortinava debilmente. As águas levavam embora as tristezas do dia, e renovavam silenciosamente a esperança de um amanhã.
Quando ficávamos bêbados, íamos curar a ressaca nas águas do rio. Há um episódio interessante: certa vez, com os hormônios malogrados, depois de uma festa fracassada no Clube, fomos terminar a madrugada pelados na novíssima “barragem”. Na verdade, caímos na água vestidos e meio bêbados, mas alguém sugeriu deixar as roupas penduradas para secar… Se este alguém estava malandramente mal intencionado, ninguém se importou e ninguém se envolveu. O jogo lúdico de crianças crescidas prescindira dos outros jogos de passagem, para os quais havíamos vestido as melhores roupas e as melhores esperanças naquele dia. Creio que o delegado não soube, nem o Pe. Brandt.
Era um outro tempo. Hoje, as ressacas são outras e, talvez, as estejamos tentando curar (cercados pela nostalgia que une as duas pontas do novelo), em outras águas: nas águas turvas da linguagem.