30/12/2021

O Aguilhão

Tese · publicado em 30/12/2021

Tive alguns amigos geniais que influenciaram minha formação intelectual. O diretor do Maristas de Arari, onde estudei, embora também fosse uma pessoa admirável, não me influenciou — ao menos, não positivamente — porque minha incipiente formação intelectual já o percebia vinculado a uma farsa abjeta: o domínio da mente humana pela religião.

Ainda que se compreenda o sacerdócio como um emprego — que antes, inclusive, era bem remunerado, quando um bispo valia mais que um governador e um papa mais que um rei —, esse tipo de ofício sempre me pareceu asqueroso: propagar uma mentira sob o pretexto de fazer o bem, oferecendo um prêmio após a morte àqueles que forem obedientes.

As religiões, afinal, não têm interesse em desenvolver o senso crítico — sob o risco de serem desmascaradas e extintas.

Os amigos geniais que me influenciaram estavam todos dentro de uma jaula — fabricada exatamente pelas religiões. Sempre imaginei que o aguilhão foi o que os obrigou à genialidade. Sempre acreditei que as dificuldades são poderosos impulsionadores das superações humanas.

Não fosse o frio, não inventaríamos o fogo; não fossem as doenças, não inventaríamos as vacinas.

Neste caso, foi a religião, com suas correias, algemas e controles, que impôs as barreiras a serem superadas. Embora produzidas pela cultura e ainda necessárias ao estágio evolutivo da humanidade, as religiões deveriam ser continuamente aperfeiçoadas — para que deixassem a infantilidade do fundamentalismo e se abrissem à dimensão mais ampla do divino, já preconizada há muito tempo pelo próprio Cristo.

Minha cruzada contra as religiões é apenas um gesto egoísta. Não quero mudar o mundo por algum altruísmo hipócrita: quero mudá-lo para conseguir viver bem nele.

É uma questão de orçamento público.

Mesmo que se confirme a tese da reencarnação — mais logicamente plausível do que permanecer num armário esperando o Juízo Final —, ainda assim quero viver num mundo melhor, sem os bilhões de crentes-ovelhas-de-matadouro de agora e sem essa cultura simiesca, individualista e violenta.

A crença em paraísos extracorpóreos opera como um anestésico político. As religiões bloqueiam a energia civilizatória — e a maioria delas é acomodada, não propondo alterações nas injustiças sociais. Por isso, servem de instrumento de dominação.

A utopia material está aqui, verificável:

• a expectativa de vida dobrou em cento e cinquenta anos;

• a pobreza extrema caiu de 90% da população mundial para 10%;

• doenças que matavam milhões foram erradicadas.

E ainda há muito a ser feito, desde que não fiquemos ancorados no conformismo e nas interpretações imobilistas do evangelho de Jesus.

Quando ele diz “bem-aventurados os mansos”, não ensina apatia — ensina ahimsa, o princípio fundamental da não violência que orientou Gandhi e o Satyagraha, filosofia e prática de resistência pacífica que buscava a “força da verdade”. O objetivo era convencer o oponente de forma pacífica, em vez de forçá-lo.

É isso que significa ser manso: agir sem violência para melhorar o mundo.

Além disso, o fundamentalismo religioso é, essencialmente, pensamento tribal: nós contra eles, crentes contra infiéis, eleitos contra condenados. Isso não supera a violência primata — apenas a ritualiza.

Melhorar o mundo não é a caridade vazia, igual à do espírita que pratica “obras de justiça” diante dos outros apenas para receber o reforço social da comunidade.

Caridade verdadeira é preparar o terreno para o próprio retorno.

É o egoísmo que se dobra sobre si mesmo e se torna prática construtiva.

A crítica ao fundamento ideológico da religião como virtude passiva e imobilista não deve ignorar iluminações pontuais, como as que ocorreram entre os evangélicos negros dos EUA, que defendiam que o Reino de Deus deveria se manifestar em leis justas, integração racial e dignidade material — considerando Jesus um revolucionário político alinhado com os oprimidos.

Eles são ativos na fé.

Eu mesmo vi um pastor da Maranata pregar algo semelhante, quase em poema:

Jesus é meu psicológico,

meu filósofo preferido.

Não estou preocupado se vou encontrá-lo depois da morte —

isso é tolice,

discussão infindável que não leva a lugar nenhum.

Eu o sigo porque o amo,

e sua doutrina é útil para minha vida real.

Seus ensinos são um manual de terapia.

Lembram-se de Mateus 11:28-30?

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês.

Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.

Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Ele me ajuda a viver.

Quem está preocupado com céu e inferno são as pessoas más.

Jesus como psicólogo — preocupado com a vida real, material e urgente — é um excelente antídoto contra a alienação.

A esperança no paraíso extracorpóreo funciona como desculpa para a inação: se a justiça verdadeira está depois da morte, a injustiça presente não será combatida.

Essa anestesia espiritual desvia recursos coletivos — financeiros, políticos e psíquicos — da construção concreta de condições civilizacionais mínimas.

Em contraste, quando recusamos essa consolação metafísica, o presente torna-se intolerável em sua crueldade — e, portanto, mobiliza energias transformadoras.

Não é altruísmo: é egoísmo esclarecido.

Quero viver bem neste mundo — e não esperar confortavelmente pela morte.

E, se houver reencarnação, meu interesse em melhorar este plano se multiplica: estarei preparando o meu próprio retorno.

Escrito em Tese | Tags: religião consciência Jesus