Somos feitos dos retalhos do que vivemos. Não podemos fugir disso. Cada um traz a marca de cada segundo de sua existência; algumas delas são deléveis, outras são cicatrizes.
Minha marca econômica é apenas a experiência de educação formal na universidade. A maneira como a “mente” foi moldada. Eu penso sob um viés econômico. Por força dessa condução sintática do raciocínio, não sei se estou refletindo corretamente ou apenas sendo parcial. Quem pensa como marxista diverge de um pensar cristão e mesmo de um keynesiano. São as marcas, os namoros e os casamentos dos neurônios de nosso cérebro, que não precisam ser eternos, mas duram o suficiente para formar nossa “personalidade” psicológica.
Mas não é disso que desejo falar.
Essa introdução é apenas para iniciar um assunto mais inquietante. Minha mente econômica me induz a pensar, divergindo ou tangenciando Marx, que não temos nenhuma influência na construção da história. Estou sendo hiperbólico para demonstrar que nossa influência é tão insignificante quanto desprezível.
Não foram os iluministas que fizeram a Revolução Francesa. Não foi o pensamento liberal que preparou nenhuma revolução burguesa. Seguindo a linha do pensar marxista, a estrutura econômica produz a superestrutura. Dessa forma, os iluministas foram pagos pela burguesia; são produto daquele momento histórico das relações de produção. Não vieram antes. Vieram depois. O que vem antes é a dinâmica das relações de produção, bruta e inexorável, que independe de ideias.
A dialética da luta de classes, no tempo de Marx, ainda era perceptível e funcional. Via-se, perfeitamente, o movimento operário “ajustar” os ganhos do capital. Os investimentos burgueses (em acumulação e tecnologia) tinham que se adaptar à pressão do movimento operário. Mas isso era insignificante. O rio burguês do capitalismo sempre correu imorredouro para o mar da hegemonia. Os golpes de Estado da Rússia, de Cuba e da China foram apenas inspirados no ideal comunista. A política fez o resto.
Se podemos considerar uma mão que mudou o mundo, foi a mão no bolso do burguês. Foram os investimentos da burguesia que financiaram as penas dos seus intelectuais liberais, ajustando o pensamento social à nova realidade, já existente.
Na dialética da luta de classes, entre a aristocracia feudal e a burguesia nascente, quem mandava e desmandava era o processo econômico. E foi uma guerra de mil anos. A burguesia não se tornou hegemônica sem antes trilhar o caminho silencioso do pequeno artesanato dentro do feudo, do comércio entre burgos, até chegar ao capitalismo mercantil, industrial, imperialista e financeiro. Um caminho sangrento. Somando todas as revoluções burguesas, temos mais mortos que 100 pandemias de Covid.
Na dialética da luta de classes, entre a burguesia já consolidada, agora em fase imperialista, e o seu filho legítimo, o operário, que sob a luz da genialidade do namorado do Engels pode ser chamado de proletariado marxista, quem venceu a parada foi a locomotiva tecnológica. O capitalismo não estava mais preocupado em se legitimar. Estava apenas querendo limpar o terreno para sua consolidação definitiva e o operário, leitor de Marx, era uma erva daninha a ser eliminada. E foi uma guerra breve de pouco mais de 50 anos. Em termos históricos, foi uma goleada. Mas foi necessário dividir a guerra em duas (uma chamada de Primeira Guerra Mundial e outra a Segunda Guerra Mundial): o proletariado marxista foi nocauteado. As tensões entre o socialismo e capitalismo na nova ordem mundial não tinham nada de luta de classe (Trotski está morto), mas apenas a natural tensão política entre os senhores do mundo. Ainda que subsistam as tentativas de tomada do poder pelos operários (alimentada por uma parte dos senhores do mundo) - basta lembrar maio de 1964 na França, os golpes no Brasil e no Chile na mesma época - ainda assim, creio, a burguesia imperialista do capital produtivo estava consolidada. Qualquer guinada à esquerda em um país, mesmo no centro do capitalismo, não altera em nada a estrutura. As oscilações políticas são absorvidas pelo núcleo duro do capitalismo e entendidas até como necessárias para reafirmar a força utópica da democracia burguesa, embora a ditadura e a tirania estejam sempre à mão.
Se pudéssemos pensar em termos didáticos, podemos ilustrar o fim da URSS como o marco da derrocada do ideal comunista. Obviamente, que isso é apenas ilustrativo, pois o processo histórico não possui datas. Como no Tao, dentro de um movimento já estava a semente do outro: germinando na briga entre a burguesia e o proletariado, o capital financeiro já estava se desenvolvendo.
Logo em seguida, agora sem adversário externo, a burguesia enfrentou uma briga interna, entre seus segmentos mais poderosos. Na dialética da luta de classes, entre a burguesia do capital produtivo/imperialista e a burguesia do capital vagabundo, quem venceu a parada foi a locomotiva metafísica do dinheiro. Com Marx morto e seu operariado sucumbido, restou ao capitalismo continuar seu processo de metamorfose. O monopólio imperialista, que os marxistas teimam em ver como decadente, se tornou a força motriz para o surgimento de uma burguesia rentista, que termina sufocando o capital produtivo, dominando-o até a raiz. Assim como o operário virou suco nas mãos do empresário, assim também o capitalista-trabalhador entrega parte do seu suor para alimentar a grande máquina vagabunda. Ou seja, o operário e o capitalista-trabalhador são os novos escravos de um novo senhor. Obviamente, que você não pode ler um operário no chão de fábrica de uma montadora de automóveis, fazendo o mesmo que seu irmão há dois séculos, e um capitalista-trabalhador que foi destronado por Jorge Paulo Lemann e está agora (continua) de boas, morando em algum Alphaville e viajando pelo mundo…
Briga de compadres, a luta de classe entre o capital produtivo e o capital financeiro não derramou uma lágrima de sangue.
Hoje, ainda vivemos esse império do capital vagabundo (infinitamente mais preparado que o capital produtivo), que sodomiza o mundo inteiro (recursos naturais e humanos), mas que apenas confirma o grau de evolução humana, ainda fortemente egoísta e predadora.
E não seria exagero concluir que, na dialética da luta de classes, na imensa ilha da rapidez tecnológica, entre a burguesia do capital vagabundo e o que restou de seus adversários (capitalista-trabalhadores, operários marxistas e um mar de gente alienada, mas fortemente rancorosa), o futuro será definido pelas “ações” subterrâneas do imperador sistema financeiro mundial, com suas Inteligências Artificiais substituindo todos (trabalhadores e gestores capitalistas) e oferecendo a eles a droga estética do ócio, do prazer e da obediência.
Portanto, não foram as infinitas horas de leitura e de escrita no frio europeu dos iluministas que prepararam a revolução americana: quem a pariu foram os interesses do capital produtivo, que usaram a teoria mais à mão. Não foram os cândidos corações dos abolicionistas que libertaram os escravos: quem os libertou foi a necessidade de consumo do mercado capitalista.
Dói essa inutilidade, quando percebes que qualquer luta é vã? Que tua pena é inútil? Que estais no mundo apenas para dançar uma música tocada por outros? Ou segurar o chifre da vaca para outros beberem o leite, como se costuma dizer no Tribunal de Contas? Consola-te com a certeza que até o pragmático maquiavelista Dino está submisso ao atacarejante Matheus?
Coitado de mim, que apenas danço! Coitado de mim, que sou apenas uma galinha que põe ovos de clara e ouro financeiro! Coitado de mim, que me empurram goela abaixo uma ideologia qualquer, uma religião tosca qualquer, alguns minutos da droga estética da mass media, alguma obediência covarde e a submissão impotente.
“Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.”
E como pode uma pena brochante subsistir? Todos precisam de potência, ainda que sua ilusão. Há intelectuais que subsistem pela empáfia dos elogios ou por mínimos desejos materiais. Se há alguém que ainda se alimenta de tais reforçadores, parabéns! Tenho lutado para que minha pena tenha um destino inversamente proporcional ao meu pau brochante. Preciso encontrar uma potência, ainda que seja escrever um livro de poesia inexpressivo, seja comprar uma moto mais moderna ou uma amante mais nova e mais mentirosa.
“Quando a hora dobra em triste e tardo toque e em noite horrenda vejo escoar-se o dia”, resta, talvez, o prazer de degustar a própria saliva. Saber de sua inutilidade e ainda assim continuar. “Faz escuro, mas eu canto”. Cantando, como um galo velho, macho, cujo grito, rouco e sangrento, é “mero complemento de auroras”, mas que, existindo, possa construir, egoisticamente, ainda que compartilhado, o Ser que se faz ao fazer algo.