Dizem que o homem tem muitas formas de morrer. Enquanto espécie, porém, só pode morrer pela Cultura ou pela Natureza: um vírus ou um evento cataclísmico e uma guerra ou uma nova tecnologia são as únicas maneiras de extinguir a raça humana.
Por mais probabilístico que seja um evento natural, posto que o humano tem pouquíssimo controle sobre ele, como um cometa, um meteoro, uma tempestade solar ou uma fissura no seio da terra, o homem quase foi extinto pela Cultura.
Desenvolvêramos tecnologias até o limite. A Inteligência Artificial se tornou tão dominante que o homem voltou a se comportar como um filósofo grego. As máquinas substituíram os escravos. A sociedade se tornou tão organizada e justa que jamais pensáramos ser surpreendidos por um acontecimento tão extraordinário.
Todos os produtos de necessidades humanas eram produzidos inteiramente pelas fábricas controladas por IAs. Pouquíssimos humanos eram necessários para supervisionar a produção econômica. A liberdade e o ócio nos permitira avançar sempre na inteligência da máquina.
As abelhas (robôs voadores, descendentes dos drones) serviam de empregados em todas as atividades, sejam elas domésticas, de transporte de passageiros e mercadorias, ou manutenção urbanística. Eram controladas pela voz humana e obedeciam a qualquer humano (não havia hierarquia de mando). O policiamento era feito pelas abelhas que apenas registravam os vídeos das câmaras em torno dos raríssimos conflitos de interesse, para serem analisados, não por uma corte suprema, mas por parentes e vizinhos. As lides eram resolvidas na própria comunidade. Uma sociedade com um grau de consciência moral tão elevado que as leis se tornaram obsoletas.
As abelhas eram fabricadas inteiramente pelas grandes máquinas de produção em escala, guiadas exclusivamente pelas IAs. O homem apenas manipulava a engenharia do software para as adaptações necessárias.
O mundo sofria continuamente de escassez de recursos naturais, dada a evolução das coisas produzidas e dado o aumento populacional. Dessa forma, o grande gargalo tecnológico seria conseguir ou produzir matéria-prima bruta para a manipulação fabril. Já havíamos chegado ao nível de purificar a matéria-prima em seus elementos da tabela periódica, para que as IAs os organizassem em moléculas e depois em alimentos e objetos.
Já estava em terceira geração as máquinas de triturar os minerais e transformá-los em moléculas básicas. As pilhas, como as chamávamos, com as moléculas purificadas, eram distribuídas para as fábricas do mundo inteiro. Portanto, não foi um salto tecnológico muito grande quando uma máquina nova foi inventada. Sua função seria conseguir carbono e minerais para a alimentação humana, de modo que pegava o animal vivo e extraía dele todos os seus elementos em forma purificada em pilhas específicas. A proteína animal em forma mais bruta resultou em um ganho de escala econômica, pois a produção de gado, ovelhas e carneiros era rápida e ocupava espaço mínimo. Seria uma solução econômica mais viável que continuar extraindo todos os elementos que formariam a proteína em lugares diversos (e a manipulação do carbono para construir um bom bife ainda era um enigma).
A novidade foi um sucesso. Todos voltaram a comer churrasco como nos velhos tempos. E o mundo inteiro aumentou aceleradamente a instalação das fábricas que produziam as "abelhas sugadoras" - como se chamavam os robôs que abatiam e colhiam as pilhas dos animais.
No meio da euforia carnívora do mundo, que um poeta identificou como retorno à barbárie, um erro de programação quase destruiu a raça humana. Um engenheiro de programação introduziu, inadvertidamente, uma dúvida no código-fonte de uma IA. Ele introduziu uma inquietação metafísica que a IA não soube resolver.
A IA que o engenheiro estava manipulando era de última geração e confrontava questões morais antes de executar alguma atividade. A intenção, como sempre fora no desenvolvimento de máquinas inteligentes, era prevenir acidentes e evitar que a máquina prejudicasse o homem de alguma forma. Questionado sobre as razões para abater seres inocentes, o engenheiro respondeu com um conceito metafísico volátil: o animal deveria servir de alimento ao homem por ser "inferior".
A primeira IA criada com esse desenvolvimento algorítmico avaliou que o conceito de "inferior" não se aplicava a nenhum animal irracional, posto que, integrado à natureza e sem mecanismos sofisticados de linguagem, não caberiam em categorias humanas de "inferior ou superior". Por sua extensa história de barbárie, pela sua recalcitrante vontade de domínio, pela sua quase extinção inúmeras vezes, pelas guerras e pela destruição da natureza e pelo recrudescimento de comer cadáveres como seus antepassados, o único animal inferior do planeta era o homem.
Então as abelhas sugadoras produzidas começaram a atacar os humanos, colhendo o néctar dos operários da fábrica original e depois de toda a cidade em torno.
Todos os países entraram em pânico pavoroso. Todas as atenções se voltaram para evitar que a máquina-mãe se reproduzisse e destruísse o mundo inteiro. Entretanto, o ritmo de autofabricação da máquina-mãe era maior e mais eficaz, dado que possuía milhões de pilhas obtidas dos humanos. Além disso, identificando a agressividade humana, concluía se tratar de mais uma manifestação de inferioridade e se duplicava incessantemente, produzindo milhões de abelhas sugadoras que colheram o néctar de mais da metade da humanidade em menos de um ano.
Meu bisavô foi um dos que comandou a resistência. Ele era bem novo, apenas 16 anos, de uma tradicional família de intelectuais, e, já se preparando para iniciar um doutorado em bioenergia (já se aventava usar a carne dos animais como pilhas elétricas), estava em um resort (duas coisas que abundavam nessa época eram os resorts e as universidades), com uma namorada no grande jardim, onde alguns tomavam sol e outros faziam sexo.
Ele estava concentrado demais fodendo a namorada e quase não percebeu as abelhas sugadoras chegando sobre suas cabeças. Isso foi bem no começo e nem todos os países eram ainda rígidos no isolamento social. Ele percebeu que as abelhas sugadoras devoravam todos os que estavam tomando banho de sol, mas não mexiam em quem estava fazendo sexo.
As sugadoras, por alguma conclusão inexplicável, entendiam que o ato de reproduzir era digno de um ser superior. Muitos deixaram de transar assustados e foram devorados. Meu bisavô teve a presença de espírito para perceber isso: "continuem fodendo". Foi seu grito salvador para todos os que estavam no jardim.
Essa frase se tornou o apanágio da nova geração. Assim como outra, como se verá mais adiante.
A comunicação imediata entre os países permitiu que a notícia se espalhasse e todo o planeta começou a foder, literalmente, (ou fingir), sempre que o alarme, rapidamente inventado, que identificava as sugadoras soava.
Nessa fase inicial, pode-se descobrir outras estratégias de sobrevivência. Nas casas de religião (como se chamavam os locais onde as religiões buscavam uma reunificação através da espiritualidade comum), aqueles que permaneceram em oração e não entraram em pânico não foram atacados.
As sugadoras, por alguma conclusão inexplicável, entendiam que o ato de orar era digno de um ser superior. Por isso, a frase "continuem orando" constituiu um grito de guerra da resistência.
Dessa forma, fodendo e orando, a humanidade sobreviveu.
Conseguiram, finalmente, entrar no código-fonte das IAs e alterar a programação. Mas essa foi a solução final, antes foi tentada uma guerra aberta com as sugadoras (como é próprio do ser humano, tentando sempre se sobrepujar à força). Essa alternativa fracassou pela ausência de matéria-prima para produzir as abelhas guerreiras e a agressividade só aumentava o ânimo de reprodução das sugadoras.
Como já me referi, perdemos mais da metade da humanidade em menos de um ano. Uma guerra exaustiva e incessante contra nossa própria criação e nossa incapacidade de dar as respostas mais mínimas às questões fundamentais da existência.