Talvez uma das coisas mais importantes para o ser humano seria aumentar o nível de sua consciência, para compreender o mundo além da aparência bruta da sobrevivência:
O açougueiro descobrir que a carne que vende faz mal ao corpo humano; O padre descobrir que Deus não existe; O psicanalista descobrir que passou a vida inteira estudando uma ficção; O auditor do tribunal de contas descobrir que sua instituição beneficia mais os ricos que os pobres; O bancário descobrir que está enriquecendo rentistas/parasitas preguiçosos; O operário descobrir que, com o suor do seu rosto, está enriquecendo o patrão; O crente descobrir que, com o suor do seu rosto, está enriquecendo o pastor.
Com exceção do operário, cuja carência material favorece o despertar da consciência política, para todos os outros é extremamente raro encontrar alguém que tenha despertado.
A maioria das pessoas está imersa na própria escuridão, no próprio sono; está ocupada com a luta pela sobrevivência e não consegue perceber essas sutilezas filosóficas.
Além do mais, de que serviria acordar?
O padre continuaria padre, ainda que com um pouco de dor; O psicanalista continuaria psicanalista, ainda que com um pouco de rancor; O auditor continuaria auditor, ainda que se lamente; O operário talvez comece a votar no PCO; E o crente talvez mude de igreja;
De qualquer forma, adquirir consciência das coisas tem um impacto irrelevante sobre o mundo. Como disse Marx, o mundo só muda quando mudam os modos de produção.
E, curiosamente, estamos vendo, debaixo de nossas ventas, o mundo mudar o modo de produção e não temos consciência nenhuma do que está acontecendo.
Porque não fomos educados para ter consciência de nada; por não termos consciência de que a carne faz mal; que Deus não existe; que a psicanálise é uma farsa; que o patrão enriquece com o suor do operário; que o pastor se beneficia do sofrimento do crente; por não termos consciência dessas pequenas coisas, não conseguimos ter consciência da mudança estrutural que está ocorrendo sobre nossas vistas.
O mundo segue em modo automático. Agora, apenas mudou para outro modo de produção — o modo de produção “virtual”, que subjuga o modo de produção do capitalista/financeiro, sem alterá-lo em essência, mas cria novas configurações de relações de produção; e quem não estiver desperto para isso perderá o trem da história.