14/03/2022

Fichando "Sobre Delírios e Alucinações" de Ilma Goulart

Crônica · publicado em 14/03/2022

Controlar o comportamento verbal de pessoa diagnosticada como esquizofrênica é possível, o que tornaria o convívio melhor e diminuiria o sofrimento. Entretanto, isso não significa curá-la. Significa, apenas, silenciá-la. Silenciar a verbalização das vozes para os outros, mantendo-as no mundo interior.

A fala delirante nasceu da ontogênese da pessoa e/ou é defeito neural preexistente?

O ovo ou a galinha?

Mil anos de pesquisa científica e não responderemos essa questão. Há razão pra crer na plausibilidade de uma e de outra:

1 - Condições ambientais extremamente hostis podem gerar esquizofrenia.

2 - Alguma pesquisa pode identificar um conjunto de neurônios ligados a fala, a visão, a audição e a decodificação dos sinais ambientais que tenham fissuras.

Em ambos os casos, é muito difícil a reversão:

  • construído na história de vida da pessoa esquizo, através de múltiplas contingências de reforçamento, o comportamento está modelado e consolidado;

  • sendo de natureza neural ou hormonal, obviamente, passou pelas contingências de reforçamento e já está também modelado e consolidado.

Minha professora de comportamental jura de pés juntos que o comportamento esquizo pode ser explicado por “deficits” nos repertórios comportamentais complexos", isto é, o comportamento verbal do esquizofrênico, como qualquer outro comportamento, é modelado e mantido por certas contingências de reforço. Embora nunca tenha sido provado, com duplo cego, a determinação biológica para a esquizofrenia é uma das hipóteses defendidas por outro comportamental, chamado Staats, que produziu uma teoria da linguagem bem legal e que eu preciso ler. Ele advoga que a linguagem tem papel importante para eliciar uma resposta emocional, além, é claro, de ter papel decisivo na construção das regras e autorregras que podem controlar o comportamento do indivíduo.

Segundo Staats, uma alucinação PODE ser considerada como uma resposta sensorial que foi condicionada a algum estímulo e que pode ser novamente provocada por ele. Esse estímulo pode ser até autofalas, ou seja, pensamentos. As palavras têm força de modo diferente para cada indivíduo e, para o esquizofrênico, elas podem eliciar emoções e imagens alucinatórias, que, por sua vez, serão verbalizadas externas e/ou internamente.

Essa é a posição da ciência, que precisa encontrar uma explicação objetiva e pragmática.

Bem diferente da explicação metafísica/religiosa que afirma que a alucinação do esquizofrênico é, algumas vezes, uma resposta sensorial a um estímulo fora do mundo material (ou material, mas infinitamente sutil e, portanto, imperceptível).

Essa teoria é extremamente difícil de ser provada: como afirmar, com certeza matemática, se o estímulo que gerou a imagem alucinatória se originou de uma resposta “espiritual” ou real, porém, imensamente sutil e que só aquele indivíduo teve a capacidade (potência) de sentir? Lembrem-se que os espíritas afirmam que os médiuns são antenas que ligam os dois mundos - o material e o espiritual (Chico Xavier, sempre genial e gozador, afirmava que era apenas uma mula, carregando coisas de lá pra cá...). Lembrem-se, também, que a Ciência Espírita, pilar do espiritismo não dogmático, nunca chegou, nem perto, de qualquer comprovação da existência de espíritos. E nem a academia, vide projeto do InterPsi da USP, Nefp da UnB ou da Divisão de Estudos da Percepção da Universidade da Virgínia, pra ficar em alguns exemplos.

Além disso, rastrear na estrutura da linguagem delirante uma conexão para essa explicação metafísica é uma tarefa quase impossível, talvez comparável a tentativa de uma explicação psicanalítica.

Entretanto, se a teoria religiosa tem acolhimento e amparo na percepção do indivíduo esquizo de modo a minimizar os riscos de eventos extremos, ela deveria ser utilizada, até mesmo nos meios acadêmicos.

Escrito em Crônica