Ontem, quase virei o católico que nunca fui: obrigaram-me a acompanhar a procissão da paróquia do meu bairro. Quatro gatos pingados e um carro de som não me deixavam passar. Comemorava-se alguma coisa relativa a São Francisco e Santa Clara, dois santos irmanados como padroeiros conjuntos da igreja local e que, segundo as más línguas, foram namorados, quando vivos, o que os torna, numa leitura mais profunda e sentimental, imagem perfeita de duas almas gêmeas que se encontram (coisa raríssima neste planeta), ainda que essa reaproximação seja obstada pelas circunstâncias do momento.
Todo mundo tem uma simpatia quase involuntária para com o amor impossível.
A realização afetiva plena nos é idealmente desejada, como se busca retornar ao útero da mãe, aconchegante, na beatitude angélica da paz; alimentados na seiva do prazer da identificação com um outro, quase igual, a completarem-se mutuamente na unidade da perfeição, que imaginamos seria a verdadeira face de Deus.
A dor da frustração desse sonho de unidade, ainda que imaginado no outro, sentimo-la como se houvéssemos, nós mesmos, sido feridos.
Quem ainda lembra do Pe. Clodomir, impedido, sob o peso do manto sacerdotal, de viver abertamente uma vida conjugal transparente?
O amor impossível sempre foi uma inspiração para as grandes narrativas literárias, que nos lembre Shakespeare com seu Romeu e Julieta.
Por que chamam a paróquia do meu bairro de São Francisco e Santa Clara? Ora, porque eu vim morar aqui com minha mulher. O Papa, que tem as chaves do céu e com certeza do futuro, previu que viríamos morar aqui e mandou batizar a igreja com o nome dos santos amorosos.
Eu tive uma imediata simpatia por aquele homem que conduzia a procissão naquele dia. Era alto, forte, branco, com uma voz masculina e triste.
Seria essa tristeza decorrente da compreensão de que havia caído numa arapuca (estava escravizado a um ofício que não lhe permitiria a liberdade de amar, salvo dentro das regras de relacionamento autorizadas pelo Direito Canônico) ou a insignificância do evento lhe premia a potência, já agastada pelo desconforto da vaidade vencida? Seria ele mais um medíocre a desejar viver das migalhas da sociedade, a que todos chamam de poder e fama, ou aquela impotência significava a dor por não poder alcançar mais fiéis para a Boa Nova?
Como alguém escolhe ser padre nos dias de hoje?
Não há mais sacerdotes como Alfredinho, o menino doloroso chamado Fredy Kunz, que da própria experiência sofrida soube ungir o mundo com a compaixão infinita do Cristo. Chegou ao Brasil com o coração ardendo pelo horror da guerra, que os brancos e cultos europeus produziram para retirar dos judeus o domínio financeiro do mundo. Os interesses escusos das elites eram enovelados pela propaganda de eugenia e potência a fazer marchar voluntariamente pobres e infelizes para o suicídio (foram mais de 80 milhões de almas perdidas na Segunda Guerra Mundial, um número aterrador, mas que nenhuma comoção produz aos donos do mundo que, até hoje, carregam as mãos sujas de sangue – só na URSS, mais de 25 milhões de meninos enganados perderam a vida ao tentar fugir de uma ideologia que não compreendiam...
Quando chegou ao Brasil encontrou outra guerra, mais silenciosa e, mesmo assim, tão mortal e estúpida quanto a outra. Aqui, havia a Miséria – gerada pelo egoísmo, pelo individualismo, pelo sistema de castas, pela estrutura de poder aristocrática, pela indiferença... Aqui, ele viu mulheres se prostituírem para conseguir sobreviver. Viu-as morrer na doença e no abandono. Quando uma de suas amigas morreu, ele se mudou para a palafita, onde ela morava e fez ali sua igreja. O patrono das prostitutas. Quase a Igreja Católica o canoniza, não fosse tão escandaloso, ainda hoje, defender mulheres que usam o sexo para se sustentar. Onde todos viam pecado, ele via sofrimento e desamparo; enquanto os ricos do mundo festejavam nos seus jardins floridos, ornados com as lágrimas dos seus escravos, Alfredinho andava descalço pelas tábuas das palafitas, dando extrema-unção a moças moribundas e esperança àquelas que resistiam. Para ele, na prática da vida diária (e não na teoria acadêmica e nem no luxo da escritura), a existência mais vulnerável era sagrada. Um outro Francisco que apostou também que a vida material não basta...
Mas o mundo ainda está cheio de servos sofredores, ou para uma tradução marxista, escravos explorados.
Eles estavam ali, naquela procissão que me impedia o caminho. E, ao me obrigar a segui-los, abria-me veredas no coração: havia uma fragilidade comovente naquelas pessoas que seguiam ordeiramente.
Ali, podia-se ver clara e franciscanamente a função social da religião: acolher os sofredores e amedrontados, tão fragilizados pelas dores da realidade que não conseguem reagir.
Por que os psicólogos não fazem procissão também? Por que a comunicação religiosa afaga melhor a alma que a comunicação técnica da ciência? Por mais que se queira, não se pode, de imediato, romper essa tendência moldada historicamente de ocupar o vazio da alma com a fé.
Mesmo porque não teríamos nada para colocar no seu lugar.
Restam-nos Alfredinhos e outros Franciscos.
Senti vontade de voltar à igreja, ainda que seja para conhecer esse pároco bonitão, que pareceu apostar numa fé ativa e digna de Cristo.