27/11/2022

Canalha

Crônica · publicado em 27/11/2022

As palavras possuem significado e densidade diferentes para cada pessoa. Não é só no dicionário que elas moram. Elas moram no "coração" de cada pessoa. Essa parece ser a dificuldade da psicoterapia: extrair esse significado e entregá-lo ao cliente, para que ele aprenda a lidar com ele. Palavras como Pai, Mãe, Deus, Casamento, Justiça, Corrupção... possuem significados diferentes para cada pessoa, não são apenas sintagmas congelados no freezer do Aurélio. O nome Pai para Jesus tinha (tem?) um poder sobre-humano – acho que Freud quase compreendeu o poder dessa palavra. Alguns associam Pai a Deus; outros, a proteção; outros a maus-tratos e dor. Tudo vai depender da sua “ontogênese”: que é a história individual de aprendizagem de cada um, de como tua experiência de vida formou teus conceitos.

Por isso, as brigas se acumulam, porque não se está falando a mesma língua.

Estou refletindo sobre isso, porque lembrei de uma das palavras mais monstruosas pra mim: Canalha. E vou contar como foi que ela nasceu na minha ontogênese.

Ela tem um significado muito além do dicionário, talvez porque tenha sido construída no começo de minha formação intelectual.

Enquanto meus amigos liam o baitola bolsonarista do Tex e seu namorado Carson, eu, como bom menino autista, lia uma revista chamada Ken Parker (depois vim a saber que era considerada uma obra de arte magnífica).

Veja, eu estava atraído pela arte deste pequeno (deve ser porque, na época - e não estou seguro, se nesta também - eu era um boboca, nome que hoje se dá modernamente aos incompreendidos laudados com transtorno do desenvolvimento intelectual).

Pois bem, o idiota da família deve muito a pessoas que escreveram roteiros para Ken Parker: Alfredo Castelli e Tiziano Sclavi e Maurizio Mantero. Foram esses senhores que moldaram minha sensibilidade literária e meu gosto pela arte e, ademais, como consequência inevitável, minha humanidade.

A palavra CANALHA aparece num dos mais terríveis gibis do Ken Parker. Pena que não lembro quem fez o roteiro. Essa palavra surge ideograficamente em caracteres pequenos e vai se avolumando, à medida que o plano do quadro se expande para mostrar a vastidão da floresta, a solidão e a inevitabilidade da morte por abandono. Ali está o ponto fundamental da trama, a chave de ouro, ecoando no meio da floresta americana como um brado de agonia e impotência. Não era preciso escrever mais nada. Apenas a palavra solitária como um grito de agonia.

Não foi preciso ir ao dicionário para saber o que aquela palavra significava.

Hoje, não uso esta palavra e, quando a uso, uso indevidamente. Ela possui uma carga negativa impressionante.

Então, quando preciso chamar alguém de canalha, eu escolho a palavra "mofético", que é muito mais suave e maranhense.

Escrito em Crônica | Tags: linguagem psicologia moral