06/12/2022

A primeira vez que vi o Rio

Crônica · publicado em 06/12/2022

No segundo ano de faculdade, viajei pro Rio de Janeiro, entocado no fundo de um ônibus de excursão para um congresso da UNE, e lá aproveitei para conhecer o tio Ed, baldo na vida por cair do mastro de um navio.

Sempre deitado diante da TV, me obrigava a assistir todo o desfile das escolas de samba para mostrar as bundas das passistas: - isso é bom demais, né? dizia com a gula saciada dos impossíveis e a suave ilusão dos que esperam um milagre.

Eu confirmava timidamente com a cabeça, comovido com o destino de um homem sem esperança que envelheceria com ilusões (das bundas e dos milagres).

Alguns anos adiante, conheceria o russo Botchikarovi que flanava fraternalmente comigo pela brisa canabinal ao sol poente em Iracema, e citava Maiakovski de cabeça, e mostrava os bares onde se cheirava cocaína e se vendia as filhas menores aos turistas.

Ele comia meu coordenador do mestrado e não tinha mais nenhuma ilusão (levantava o pau por profissão, podia se lhe ver na cara).

Alguns anos antes, meu pai, que sempre havia tentado encher de fantasia e enfeitar as coisas que eu via, me havia pedido, sem nenhuma explicação, para levar comida a um rapaz no fundo do quintal. Eu entendi que aquilo seria uma forma para aprender sobre as desigualdades sociais e a falta de estudo. Esse entendimento permaneceu comigo até eu conhecer o russo Valeri. Só então lembrei que o rapaz havia me confidenciado, como um professor cuidadosamente pedagógico, que fora abandonado em São Luís pelo velho Jorge Salomão. E mau aluno como sou para as coisas do mundo (como a formiga que não vê a parede porque não conhece a parece), permaneci longamente sem conhecer as regras da vida. Aliás, como todos meus amigos gays, eu fora igualmente atirado ao vale comum da bolha da ignorância.

E, assim, envelheço falho, baldo de ilusões, carregando um fardo, que a poesia, por acaso, tornou suave.

Que curioso esses três destinos: as cartas lançadas jamais abolirão o azar!

Se eu fosse um narrador, um bode josuemontellês, poderia aumentar em dois dedos de prosa a viagem ao Rio,

• na qual Zeca Baleiro, que ainda era um Querubim a aprender a fumar, dedilhava lindamente Ednardo;

• na qual, um violinista, que todos chamavam "Cruel", tornava ainda mais lírico e doloroso o por do sol, obrigando Resende a se apaixonar ardentemente por uma moça que nunca vi o rosto;

• na qual, meu futuro amigo Mauro brincava com tanta afeição e meninice com o amigo, através do dialeto das palavras invertidas, que o mundo parecia não existir para eles;

• na qual, as calças de lycra me encantaram os olhos pela primeira vez;

• na qual, uma Cassia Eller desesperada tentava, toda manhã, se lançar do alto do maracananzinho;

• etc. etc...

Espero ter escrito algo impossível de IA,

E como dizia o He-Man: "Até a próxima flatulência, pessoal".

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