O feminino foi relegado à própria sorte ao longo da história. Com o aumento dos aglomerados humanos, com a formação das primeiras cidades, com a instituição da propriedade privada e da necessidade da barbárie masculina para manter a coesão social — em outras palavras, com o nascimento do patriarcado —, predominou um certo modo de olhar o mundo e, em especial, o ser mais frágil fisicamente. Parece repetitivo e desnecessário reafirmar que a hegemonia da potência do masculino gerou um processo de submissão tão violento que as próprias mulheres assumiram como verdadeiros esses valores.
Além disso, há o componente do medo: carregá-lo diariamente no coração não é uma coisa natural. Sem o mecanismo terapêutico de fugir, sair de perto, se afastar, a mulher marcou no DNA essa submissão. A posição irrevogavelmente passiva a que estava relegada (impossível de vencer pela ausência de um ordenamento jurídico que a protegesse) permitiu, de outro modo, o entrelaçamento de outras “redes”, mais sutis, mas igualmente humilhantes. Apesar de todos os ardis de sobrevivência, restou que a potência do feminino fosse subjugada.
A mulher carrega até hoje, mesmo com amplo ordenamento jurídico a ampará-la, esse medo latente: o medo de não conseguir sobreviver por sua fragilidade econômica e intelectual; o medo de não conseguir parir corretamente; o medo de não parir uma filha; o medo de ficar velha e gorda; o medo do cu, que a tornaria inútil sexualmente; o medo dos clones, que tornaria sem serventia sua maternidade… Não é apenas o medo de ficar sozinha num mundo desamparada (que, para sua sensibilidade, é desastroso), ou de um casamento ou não-casamento ou da violência física do homem, ou de sua incapacidade de pensar sem a fé (produto de sua fragilidade)...
A condição feminina é o medo permanente, e isso foi produzido pela sociedade patriarcal.
Entretanto, é possível eliminar esse medo e adotar o feminino da potência imanente da Grande Mãe, a Grande Puta: o verdadeiro Criador.
Voltar ao matriarcado significa deixar que o feminino controle a vida; que conduza a organização social, tanto no sentido de tornar desnecessário satisfazer sexualmente o homem em todas as suas exigências e perversões, quanto no sentido de eliminar a beleza física como parâmetro de sobrevivência. Nesse sentido, não casar não significa dor; ficar velha e feia não significa dor; aceitar a poligamia e as variações sexuais não significa dor.
Se a culpa, a exploração e a guerra nasceram do cu do homem, a Grande Puta pode salvar a humanidade e eliminar a vergonha e as desigualdades que humilham e degradam a condição humana. Tudo aquilo que inferioriza a mulher e, por extensão, o próprio homem, pode ser revertido.
Sem o patriarcado, poderíamos voltar ao intuitivo, à magia e à poesia dos mitos. A tecnologia se tornaria apenas a ferramenta que é. Martelo de pregar. A inteligência artificial é apenas um martelo útil. Com a ajuda e a facilitação do martelo da tecnologia, poderíamos estar livres para eliminar as opressões de consciência do patriarcado, a exploração capitalista, a culpa, o nojo, a dor, a servidão e inferiorização da mulher, a guerra e as desigualdades, e voltar à alegria, ao acolhimento dos excluídos e a um mundo que só pensaria em gerar vida e não morte.
Delírio irrealizável? O comunismo também o é. O reino proposto por Jesus também o é. Tudo depende do delirante que o propôs.
Talvez o primeiro delirante devesse ser a própria mulher, já apta a pensar por si mesma (sem precisar de Freud e Judith Butler): ao dispensar a filha de servir ao casal sem filhos e ao obrigar o filho a comer a menina feia, já estaria precipitando a revolução. Não será com intelectualização sobre a subjetividade do hipersexualismo que se fará a derrocada do império patriarcal, mas com ações intuitivas concretas como essas. E limpar a cabeça da ideologia dominante.
E aprender a parir filhos. Como intuiu Efu Nyaki, uma mulher negra na periferia do capitalismo: “Metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas.”