31/05/2025

Sem que ninguém visse, eu fui ver Titonho.

Crônica · publicado em 31/05/2025

Afinal, um centenário carrega tanta dor e tanta luz que merece, por si só, um monumento.

Com o império da mídia digital, a maioria das pessoas só reconhece grandeza quando ela vem embalada em celebridade.

Jamais imaginariam que um obscuro velhinho centenário pudesse ter mais grandeza que o famigerado cantor Zeca Baleiro.

(Aliás, falando no famoso arariense, lembrei de quando fui expulso de um grupo de WhatsApp por defendê-lo:

reclamavam que, por ser rico, ele deveria pagar a anuidade. Argumentei que Zeca era um patrimônio imaterial e que, na verdade, deveriam era pagar a ele para participar da agremiação — e isso irritou profundamente os administradores do grupo).

Talvez a palavra mais incompreendida, naquele episódio, tenha sido "imaterial".

Presos à corrente de mirar o mundo por trás da tela — esse filtro que domestica o olhar — as pessoas desaprenderam a admirar o mundo com o olho interno.

Nunca saberão por que, para mim, um velhinho centenário e quase anônimo vale mais que uma celebridade instagramável.

E fui vê-lo movido por uma só pergunta:

Como lhe dói a morte das meninas palestinas?

Mas jamais a formularia em voz alta.

Jamais ofuscaria o brilho daquele sorriso imenso de um homem que conheceu dores suficientemente grandes para permanecer feliz.

Afinal, não há o que ele possa dizer ou fazer que mude o roteiro do mundo.

Acho que existir — e estar ali, como um monumento — já é motivo suficiente para reflexão.

Não se trata apenas do mérito do centenário (o que, por si só, já bastaria para lembrar aos jovens que a vida é um longo processo de evolução),

mas daquela coisa invisível, imaterial, que vai além da obra, além do feito, além da fama.

É a aura de uma alma risonha.

É isso que se deve mirar. E admirar.

Um poema trazido da solidão do claustro é uma obra imaterial de mérito.

Um poema de Bandeira Tribuzi é maior que a ponte Bandeira Tribuzi — que, aliás, ele não construiu.

— No meu tempo, não havia orçamento público — diz ele, em sua defesa.

— Eu sei, Titonho. A honestidade se via no olho.

Não estava ali para auditar seus erros — que, se os houve, são as pedrinhas que ele carrega no bolso — mas

para admirar sua permanência,

a lucidez,

a aura de um palestino em diáspora

e o brilho daquela felicidade inextinguível.

Escrito em Crônica | Tags: memória Arari Titonho