Afinal, um centenário carrega tanta dor e tanta luz que merece, por si só, um monumento.
Com o império da mídia digital, a maioria das pessoas só reconhece grandeza quando ela vem embalada em celebridade.
Jamais imaginariam que um obscuro velhinho centenário pudesse ter mais grandeza que o famigerado cantor Zeca Baleiro.
(Aliás, falando no famoso arariense, lembrei de quando fui expulso de um grupo de WhatsApp por defendê-lo:
reclamavam que, por ser rico, ele deveria pagar a anuidade. Argumentei que Zeca era um patrimônio imaterial e que, na verdade, deveriam era pagar a ele para participar da agremiação — e isso irritou profundamente os administradores do grupo).
Talvez a palavra mais incompreendida, naquele episódio, tenha sido "imaterial".
Presos à corrente de mirar o mundo por trás da tela — esse filtro que domestica o olhar — as pessoas desaprenderam a admirar o mundo com o olho interno.
Nunca saberão por que, para mim, um velhinho centenário e quase anônimo vale mais que uma celebridade instagramável.
E fui vê-lo movido por uma só pergunta:
Como lhe dói a morte das meninas palestinas?
Mas jamais a formularia em voz alta.
Jamais ofuscaria o brilho daquele sorriso imenso de um homem que conheceu dores suficientemente grandes para permanecer feliz.
Afinal, não há o que ele possa dizer ou fazer que mude o roteiro do mundo.
Acho que existir — e estar ali, como um monumento — já é motivo suficiente para reflexão.
Não se trata apenas do mérito do centenário (o que, por si só, já bastaria para lembrar aos jovens que a vida é um longo processo de evolução),
mas daquela coisa invisível, imaterial, que vai além da obra, além do feito, além da fama.
É a aura de uma alma risonha.
É isso que se deve mirar. E admirar.
Um poema trazido da solidão do claustro é uma obra imaterial de mérito.
Um poema de Bandeira Tribuzi é maior que a ponte Bandeira Tribuzi — que, aliás, ele não construiu.
— No meu tempo, não havia orçamento público — diz ele, em sua defesa.
— Eu sei, Titonho. A honestidade se via no olho.
Não estava ali para auditar seus erros — que, se os houve, são as pedrinhas que ele carrega no bolso — mas
para admirar sua permanência,
a lucidez,
a aura de um palestino em diáspora
e o brilho daquela felicidade inextinguível.