19/09/2026

Nasce o poeta

Afins_Ferreira Gullar · publicado em 19/09/2026

em solo humano
o nome é lançado
(ou cai
do acaso)
uma aurora
oculta num barulho
uma pedra
turva
a palavra
dita entre ráfagas
de chuva
e lampejos na noite:
lobo
um sopro
um susto
um nome
sem coisa
o uivo
na treva
o golpe
na vidraça
é o vento?
é o lobo
a palavra sem rosto
que se busca no espelho
2
ou se busca um espelho?
na lâmina das vozes
perdidas no sonho
na
lâmina
do
sono
da água
sonora
das coisas velozes
3
só sabia o nome
só sabia o medo
que esse nome dava
se era um mendigo
um gigante um bicho
isso não sabia
mas fosse o que fosse
viria do escuro
viria da noite
que oculta o mundo:
a rua da Alegria
e a mobília da casa
4
o que era aquilo
debaixo da cama?
uma coisa branca
molhada asquerosa
o que era aquilo
que não tinha nome?
parecia um bolo
mas não era um bolo
parecia um bicho
parecia um vômito
e que me espiava
sem olho nem nada
aquilo era o lobo
(a palavra lobo
enfim encarnada)
5
a palavra
estava
dentro da folha
(na quinta
do Caga Osso)
estava dentro
da margarida
uma
borboleta
dentro (a pa-
lavra)
estava
dentro
do fruto
(na alva
noite
do açúcar)
e a folha
dizia
folha
a rosa
dizia
rosa
e a água
(em si mesma
refletida)
seu próprio nome dizia
rindo
entre as pedras
mas não havia
ninguém ali
para ouvi-las
e só por isso
falavam
se vinha alguém
se calavam
6
a manhã apaga
as perguntas da noite
as coisas são claras
as coisas são sólidas
o mundo se explica
só por existir
a memória dorme
o presente ri
7
a moça baunilha
uma flama negra
na quitanda morna
confunde o sorriso
com o sorrir das frutas
seu cabelo de aço
era denso e bicho
seu olhar menina
vinha da floresta
sua pele nova
um carvão veludo
sua noite púbis
uma festa azul
misturada ao mel
no calor da tarde
durou dois segundos?
uma eternidade?
ela aquele cheiro
de casa de negros
de roupa engomando
rua do Coqueiro?
ela sua saia
de chita vermelha?
hoje é uma pantera
guardada em perfume
8
No princípio
era o verso
alheio
Disperso
em meio
às vozes
e às coisas
o poeta dorme
sem se saber
ignora o poema
não tem nada a dizer
o poema péssimo
revela
ao ser lido
que há no leitor
um poeta adormecido
o poema péssimo
(por péssimo) pode
ser comovido
inda que errado
em sua emoção
inda que truncado
em sua dicção
ele guarda um barulho
de quintal, de sala,
de vento ou de chuva
de gente que fala:
ivo viu a uva
o poeta ao ler
o péssimo poema
nele não se vê
na palavra ou verso
onde não se lê –
se lê ao reverso
em seu vir a ser
e assim vira ser
já que a escrita cria
o escrevinhador:
soletra na pétala
o seu nome: flor
o mundo que é fácil
de ver ou pegar
é difícil de ter:
difícil falar
a fala que o dá
e a fala vazia
nem é bom falar
se a fala não cria
é melhor calar
ou – à revelia
do melhor falar –
falar: que a poesia
é saber falhar
9
descubro a estranheza
do mundo
num jardim destroçado
da rua dos Prazeres
esquina de Afogados
num relance, o banal
se revela denso e
os galhos as folhas
são assombro e silêncio
o que era segurança
se esquiva – perdido
falo: planta jasmim
mas a voz não alcança
o fundo do abismo
10
a boca não fala
o ser (que está fora
de toda linguagem):
só o ser diz o ser
a folha diz folha
sem nada dizer
o poema não diz
o que a coisa é
mas diz outra coisa
que a coisa quer ser
pois nada se basta
contente de si
o poeta empresta
às coisas
sua voz – dialeto –
e o mundo
no poema
se sonha
completo

Escrito em Afins_Ferreira Gullar | Tags: Ferreira Gullar poesia brasileira linguagem criação poeta