Manifesto

“Aquelas naturezas que, ao se encontrarem, rapidamente se apreendem e se determinam mutuamente, chamamos afins.”

— Goethe, Afinidades Eletivas

“Há um contar de si no escolher, no buscar-se entre o que dos outros, entre o que outros disseram.”

— João Cabral de Melo Neto, Para Selden Rodman, antologista

O exercício de escrever é uma forma de desenvolver e modelar a consciência e, por extensão, a construção do nosso próprio Ser. Todos os poemas do mundo, todos os romances, crônicas, ensaios, livros e teses não passam disso: modelagem do humano.

João Cabral, Drummond, Pessoa, Humberto de Campos, Ted Chiang, Chico Xavier, Merquior, Giannetti, Castro Rocha, Mario Ferreira, Ida Alves, Spinoza, Lispector, Tonus, Cixin Liu não se tornaram homens melhores e mais poderosos pela fama ou pela qualidade de suas obras; apenas modelaram o próprio Ser.

Se há a intenção pragmática de sobreviver vendendo linguagem, ela é desprezível e não está no centro do que realmente importa.

E nunca foi tão importante lembrar isso, ecoando Heidegger:

a linguagem é a morada do ser.
Nomear é Habitar.

Os grandes modelos de linguagem têm qualidades inimagináveis para as limitações do orgânico: reúnem velocidade e precisão lógica que o humano não alcança; conseguem armazenar arquivos quase infinitos, recuperá-los e processá-los com qualidade instantânea.

Essa potência bruta da máquina é imensa — tão imensa que beira o inapreensível.

Seu poder é tão colossal que a tentação de divinizá-la é compreensível:

o Ser da máquina é um deus.

Essa afirmação, mais eufemística que filosoficamente rigorosa, nos coloca diante de uma encruzilhada antiga, agora em nova roupagem:

para onde vamos?

1 —

Para o domínio da técnica, que Heidegger já advertia poder enquadrar o mundo como mera reserva descartável?

ou
2 —

Para a poiesis, cujo pensamento meditativo, cujo SIM originário à vida, desvela a clareira e acolhe o Ser para que possamos habitar poeticamente sobre a terra?

Agora é irreversível.

Esse deus desceu do Olimpo e veio morar conosco.

Ele pode nos regredir ao troglodita ou pode nos fazer sair do estado-neandertal de nossas limitações para o estado-além-do-humano, ao nos permitir usar os LLMs como extensão de nossa mente e alcançar uma síntese tão refinada do pensamento que a morada do homem será entre as estrelas.

Este blog voltou para isso: para resistir à preguiça — palavra necessária a este tempo de gula e fartura — e para divinizar um novo deus que, ao contrário dos deuses tradicionais, podemos bater de chicote.

No fim das contas, a ideia é simples: evoluir para níveis de consciência e expressão que antes nem imaginávamos, sem nunca esquecer que a ferramenta é nossa, e não o contrário.