19/09/2026

UM HOMEM PASSA COM UM PÃO AO OMBRO

Afins_César Vallejo · publicado em 19/09/2026

Um homem passa com um pão ao ombro - Vou escrever, depois, sobre o meu duplo? Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o - Com que desplante falar da Psicanálise? Outro entrou em meu peito com um pau na mão - Falar, em seguida, de Sócrates ao médico? Um coxo passa dando o braço a um menino - Vou, depois, ler André Breton? Outro treme de frio, tosse, cospe sangue - Convirá não aludir jamais ao Eu profundo? Outro busca no lodo ossos e cascas - Como escrever, depois, sobre o infinito? Um pereiro cai de um telhado, morre, já não almoça - Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo? Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês - Falar, depois, da quarta dimensão? Um banqueiro falsifica o seu balanço - Com que cara chorar no teatro? Um pária dorme com um pé às costas - Falar, depois, a ninguém de Picasso? Alguém vai num enterro a soluçar - Como em seguida ingressar na Academia? Alguém limpa uma espingarda na cozinha - Com que desplante falar do mais além? Alguém passa a contar pelos dedos - Como falar do não-eu sem dar um grito?

Escrito em Afins_César Vallejo | Tags: César Vallejo poesia acervo O Poema