A
ostra, do tamanho de um seixo mediano, tem uma aparência
mais rugosa, uma cor menos uniforme, brilhantemente esbranquiçada.
É um mundo recalcitrantemente fechado. Entretanto, pode-se
abri-lo: é preciso então agarrá-la com um
pano de prato, usar de uma faca pouco cortante, denteada, fazer
várias tentativas. Os dedos curiosos ficam trinchados,
as unhas se quebram: é um trabalho grosseiro. Os golpes
que lhe são desferidos marcam de círculos brancos
seu invólucro, como halos.
No
interior encontra-se todo um mundo, de comer e de beber: sob um
"firmamento" (propriamente falando) de madrepérola,
os céus de cima se encurvam sobre os céus de baixo,
para formar nada mais que um charco, um sachê viscoso e
verdejante, que flui e reflui para a vista e o olfato, com franjas
de renda negra nas bordas.
Por
vezes mui raro uma fórmula peroliza em sua goela nácar,
e alguém encontra logo com que se adornar.
(Trad:
Ignácio Antonio Neis e Michel Peterson)
19/09/2026
A OSTRA
Afins_Francis Ponge · publicado em 19/09/2026
Escrito em Afins_Francis Ponge | Tags: Francis Ponge poesia acervo O Poema