O
molusco é um "
ser-quase-uma qualidade
".
Ele não necessita de vigamento, mas de um anteparo apenas,
algo como a cor no tubo.
Aqui a natureza renuncia à apresentação do
plasma em toda sua forma. Mostra apenas que lhe está apegada,
abrigando-o cuidadosamente num escrínio cuja face interior
é a mais bela.
Não é, pois, um simples escarro, mas uma realidade
das mais preciosas.
O molusco é dotado de uma energia possante para se fechar.
A bem dizer, não é mais que um músculo, um
gonzo, uma mola e sua porta. Duas portas ligeiramente côncavas
constituem toda a sua morada.
Primeira e última morada. Reside ali até depois
de sua morte.
Nada se pode fazer para tirá-lo dali vivo.
A menor célula do corpo do homem se apega assim, e com
essa força, à palavra - e reciprocamente.
Mas, às vezes, um outro ser vem violar essa tumba, quando
está bem-feita, e nela se fixar no lugar do construtor
defunto.
É o caso do paguro.
(Trad:
Adalberto Müller Jr. e Carlos Loria)
19/09/2026
O MOLUSCO
Afins_Francis Ponge · publicado em 19/09/2026
Escrito em Afins_Francis Ponge | Tags: Francis Ponge poesia acervo O Poema